Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
24 de março de 2008
-Texto no 1-
Fichamento do texto: “Os fascismos”, de Francisco Carlos Teixeira da Silva
O autor a principio chama a atenção, numa prévia do que abordará em seu texto, para a importância de alocar o fascismo, ou fascismos, na esteira de um movimento e influência contínuos que perduram até o momento atual, não caracterizá-lo como um evento histórico que pertence ao passado e a historiografia.
INTRODUÇÃO
Silva explica a denominação fascista, usada para qualificar os regimes de extrema direita, que chegaram ao poder na Europa do início e meados do século XX, o termo surge em razão da alcunha adotada pelos partidários do regime italiano, primeiro desses e influente em relação aos seguintes.
Quando o poeta Filippo Marinetti usou pela primeira vez a designação fascio neste contexto, as características novas de nacionalismo e autoritarismo foram aferidas ao termo.
O autor ainda neste tópico ressalta alguns dados que influenciam os pesquisadores a voltar-se mais uma vez sobre o tema, entretanto sob uma nova perspectiva: “a reunificação alemã, a partir do fim do Muro de Berlim... que possibilitou a devolução e abertura de arquivos especificamente dedicados ao fascismo; o ressurgimento do fascismo como movimento de massas em países como França, Itália, Federação Russa...” que influência os estudiosos a tratar o tema no sentido conceitual, como um fenômeno, não mais como um “período histórico determinado”.
HISTÓRIA E POLÍTICA: O LABIRINTO HISTORIOGRÁFICO DO FASCISMO
Francisco Carlos fala da intenção desse novo prisma de análise historiográfica, que se preocupa em formular uma teoria para dar conta da continuidade do movimento. Cita a abordagem mais comum deste tema, específica do pós-guerra, que trata o movimento como tendo um único foco: o fascismo alemão, ou nazismo. E aponta para o provável motivo desta abordagem. A superpotência estadunidense, que saiu do conflito, onde em teoria o fascismo havia sido derrotado e extinto, para um novo confronto de natureza distinta, mais tarde alcunhado de guerra fria. Nesta nova realidade seria inconveniente culpabilizar um número maior de países, visto que estes países poderiam facilmente se unir ao pólo oposto dessa recente disputa, a URSS. Portanto esse debate era relegado a um plano inferior, e esquecido.
A reconstrução da Europa pelos EUA, que buscava erguer sua base de apoio na guerra fria, se deu alicerçada na reestruturação moral do continente. Dessa forma, o colaboracionismo dos países invadidos pelo expansionismo fascista, ficou durante décadas abafado pela interpretação do nazismo alemão e da figura de Hitler, como únicos culpados pelas atrocidades cometidas. Enquanto os outros regimes fascistas europeus, não foram identificados como tal, redimindo de certa forma o restante da Europa fascista de sua consciência de culpa, e permitindo que tal movimento e ideologia perdurasse.
Posteriormente no texto o autor demonstra por meio de uma definição do historiador Wolfgang Schieder, como as características dos regimes fascistas estavam presentes em inúmeros países europeus, a “tese da universalidade possível do fascismo”: “se reconhece como fascistas movimentos nacionalistas extremistas de estrutura hierárquica e autoritária e de ideologia antiliberal, antidemocrática e anti-socialista que fundaram ou intentaram fundar, após a Primeira Guerra Mundial, regimes estatais autoritários. Neste último sentido, o fascismo constitui um dos fenômenos centrais e mais característicos do entreguerra”. Esse esquema seria o espectro geral do fascismo deste período, reservando, naturalmente, as especificidades de cada país.
È importante citar, um termo oriundo do líder do fascismo italiano, que foi incorporado por inúmeros grupos tanto pró como contra fascistas, este termo é ‘totalitário’. Mussolini chama de totalitário o regime que propõe e lidera, cuja característica marcante, seria a de abranger todo aspecto da vida social, econômica e política dos cidadãos sob sua tutela “ [...] espiritual ou materialmente não existiria qualquer atividade humana fora do Estado, neste sentido o fascismo é totalitário”. Quanto a teoria anti-fascista que usa do termo, fica claro que essa tendência irá enfatizar o aspecto englobante de regimes quanto ao aparato Estatal, que comporta em si uma dominação total de “partido, Estado, forças armadas, polícia secreta etc.)” Neste caso poderiam ser considerados totalitários, portanto alvos do combate liderado por EUA, regimes distintos que possuíam além dessa primeira característica, o personalismo de líderes carismáticos em comum, (hitlerismo, stalinismo, etc.) no contexto de combate ao fascismo posterior a Segunda Guerra Mundial.
Conforme o autor já havia dado uma prévia anteriormente, ele vêm tratar da importância em estudar o fascismo enquanto fenômeno, não somente acontecimento passado, em decorrência do ressurgimento de movimentos significativos de massa que reivindicam tal ideologia ou semelhante. E cita exemplos de acontecimentos recentes que explicitam isso: “O inverno europeu desse ano [1991] foi denominado de “inverno neonazista” em face dos inúmeros atos de violência praticados por grupos neofascistas, sobretudo na Alemanha”, “partidos e agrupamentos neofascistas, como o Front National, de Jean Marie Le Pen, na França; A Aliança Nacional, na Itália, de Gian-Franco Fini; os Republicanos e os Nacionais-Populares (DNV), na Alemanha, ou o Partido Liberal-Democrático, na Rússia, com Jirinovski. Estes movimentos que eclodem em conjunturas distintas daquela do início do século XX, não podem ser analisados sob a luz dos conceitos formulados para explicar um fascismo, que seria restrito àquele período histórico.
FASCISMOS: EM BUSCA DE UM MODELO DE ANÁLISE
O modelo de análise do fascismo, vai buscar em dois âmbitos a coerência desse sistema: interno e externo. O texto vai trazer a idéia de que se nos debruçarmos sobre os pontos principais das doutrinas e mesmo da relação política que esses regimes fascistas mantinham, encontraremos atributos comuns, que vão corporificar a gênese geral do fascismo. Entre estes estão não somente os motes levantados por Schieder, como também o anti-universalismo e o nacionalismo, que se traduziria também na reivindicação da originalidade e negação de qualquer influência externa sobre sua doutrina própria, bandeira levantada por todos os países fascistas, em detrimento da evidente circularidade e diálogo entre as esses países que possuíam regimes tão semelhantes. Essa homogeneidade possibilitou também a formulação do perfil do anti-fascista, baseado na identidade do fascista, tudo que não estivesse dentro dessa noção do cidadão, o diferente, seria considerado então estrangeiro, outro e combatido. Nesse perfil podemos identificar: liberais, comunistas, socialistas, gays, judeus... “Assim, malgrado Mussolini, Hitler e seus êmulos de todos os tipos reivindicarem originalidade histórica; todos, em verdade, propunham um mesmo programa, partilhavam a mesma concepção de mundo, criavam mecanismos similares de manipulação de massas, votavam o mesmo ódio e desprezo pelo liberalismo e pelo socialismo e perseguiam da mesma forma minorias identificadas com a alteridade...”. Privilegiando assim o método comparativo e fenomenológico de estudo.
O autor trata então de contrapor a uma vertente historiográfica que só considera os projetos fascistas que foram bem sucedidos em sua investida na busca pelo poder, trazendo para discussão também os programas fascistas que não se tornaram regimes. Abordando ainda, regimes também deixados de lado pela historiografia, os chamados colaboracionistas, e por último aqueles que sobreviveram ao fim da segunda guerra mundial mantendo suas características autoritárias, mas nem tanto fascistas. Englobando todos esses exemplos, para mantendo as particularidades de cada, propor um modelo que sirva de base para a análise de todos estes.
OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS: EM BUSCA DE UMA FENOMENOLOGIA DO FASCISMO
“O método aqui é a identificação da união permanente de linguagem e de ação dos agentes centrais do fascismo”
1. O Antiliberalismo e antiparlamentarismo fascista
Se por um lado o fascismo vinha a se apresentar como a solução para os problemas, em opinião destes, que o liberalismo não mais dava conta, enxergava mesmo no advento do liberalismo com a revolução francesa e em sua política representativa e desagregadora, a raiz dos males da sociedade urbana moderna. De acordo com o programa fascista, não deveriam existir intermediários, aí tratando da função do parlamento, entre o Estado, único com poder de interpretar qual a real necessidade da nação, e o povo, as massas. “ O Novo Estado, por ser de todos, totalitário, considerará como fins próprios os fins de cada grupo que o integram e velará como por si mesmo pelo interesse de todos- (Primo de Rivera, A falange Espanhola)”, deste modo não cabia a existência de mais de um partido, que prejudicaria a coesão nacional, com interesses setoriais que terminariam por lesar o coletivo.
Associada à idéia de falta de coesão nacional trazida pelo liberalismo, existia ainda o buraco deixado pelo rompimento da ligação subjetiva do homem com seu solo, sua nação, muito forte na Idade média, principalmente graças à influência da Igreja, aí podemos pensar nas paróquias, que resultava finalmente na falta de identidade com seu povo. O que o fascismo considerava uma perda de consciência de raça inaceitável.
O autor expõe como o a raça judaica é identificada nesse caso não somente como um exemplo de alteridade, dentro da nação portanto um perigo imediato, como esses também seria os melhores representantes dessa ordem urbana, burguesa e liberal que sintetizava em si o alvo dos fascistas, fossem os alemães, italianos, romenos e outros.
2. O Estado orgânico e liderança carismática
O Estado orgânico, alcunhado dessa forma, pela pretensão de seu governo, de que este funcionasse como um corpo, que age e existe em equilíbrio total de cada uma de suas partes. Metáfora dirigida à liberalização civil, que cria grupos internos, como os partidos, que passam a lutar pelo bem particular de sua classe, prejudicando a harmonia do todo, ou da nação. Ainda dentro da metáfora, o Estado orgânico, precisa da figura personificada do líder, posto que não há organismo sem a direção soberana do cérebro. “O Duce tem sempre razão”, lema do fascismo italiano cuja idéia conferia ao líder e aos mais variados escalões do partido, uma capacidade repressiva e um alcance de poder extraordinários. Considerando aspectos como o do caso alemão onde se privilegiava que as ordens fossem transmitidas através dos escalões de forma oral, somando a isso o fato de que “ante a uma decisão do Fuhrer... não cabe qualquer julgamento” constataremos que os indivíduos, estavam à mercê da arbitrária vontade dos nazistas e de sua violência, não tendo a quem ocorrer em uma instância superior, visto que o sistema judiciário estava destituído de suas funções, pois de acordo com a política nazista somente o líder poderia ser o intérprete do que seria melhor para o coletivo, em detrimento do bem individual, “...a administração pública tornava-se uma hierarquia de obediência pessoal”.
O Estado nazista, inspirado principalmente pela idéia romantizada a respeito do passado medieval germânico, propunha uma estrutura corporativista de governo, na qual não permaneceria o pensamento oriundo da revolução francesa acerca de cidadania. Seria cidadão aquele que pertencesse ao grupo, no caso a raça ariana, e os direitos individuais não existiriam de forma a não sobrepujar os direitos do coletivo.
O autor ainda expõe como o liberalismo era associado à “doutrina judia”, e a limitação do poder do Estado fruto deste modelo, era considerado a razão da crise pela qual passava a nação. Tanto no caso alemão quanto italiano. E como as conseqüências da modernização, culminaram na perda da identidade desses povos “a secularização, o avanço da sociedade liberal e a dissolução dos antigos laços identitários, como a Tradição, faziam ruir rapidamente os anteparos sociais que propiciavam alguma segurança, real ou imaginária”.
Comunidade do povo e a sociedade corporativa: o fascismo enquanto revolução
Silva vai chamar a atenção para a natureza totalizante do programa fascista, que como “metapolítico”, imiscui o âmbito público ao pessoal, dando conta de todas as esferas da vida de seus cidadãos.
Sendo possuidor de características comuns com os socialistas, o partido alemão inclusive possuía o epíteto de nacional-socialista, e também tendo elementos estruturais de acordo com a economia global, capitalista, embora fosse contra ambos os programas, o projeto fascista propunha uma terceira via econômica que seria exatamente essa mistura de ambos.
Quanto às características socialistas é importante frisar que o socialismo era uma vertente que aglutinava massas e possuía uma militância forte na maioria dos países do bloco fascista, a vertente socialista foi componente do fascismo italiano, que por seus intentos iniciais anti-capitalistas pensava na revolução como tendo dois momentos, um primeiro no qual seria tomado o poder e posteriormente um segunda revolução, instaurando um sistema onde não houvesse uma discrepância entre classes econômicas. Essa vertente entretanto foi eliminada tão logo os fascistas italianos arrebataram o poder, em seguida o movimento sindical associado a ela foi substituído por um novo tipo sindical (nacional-sindicalismo). O que aproximava esses regimes do socialismo era a crença na “...interdependência vital de todos os membros da comunidade...” Mas pregando que os interesses de operários e patrões não deveriam se chocar, ao contrário serem conciliados em favor da nação, essa terceira via constituía “A união trabalho/capital”.
Mais uma vez o autor tratará da simbologia associada à figura dos judeus, que é tido como sinônimo/símbolo da modernidade, da modernização, personificado no malévolo desagregador homem urbano, apátrido, moderno.
A destruição do eu e a negação do outro
Um ponto que sempre foi ressaltado pela historiografia tradicional foi a perseguição aos judeus, e por mais que o anti-semitismo tenha sido uma bandeira recorrente nos mais diversos regimes e projetos fascistas o judeu era somente uma expressão conveniente do inimigo. Não somente era um estrangeiro, de etnia e religião diferentes, como podia facilmente ser associado tanto ao capitalismo como ao bolchevismo, mas o foco aqui sempre foi na vítima e não no agressor, o que o grupo de historiadores do qual o autor faz parte vem transformar é exatamente o foco, da vítima para o algoz, e acrescentar um novo ponto, o ódio aos judeus configurava o repúdio a alteridade, um dos traços mais fortes no fascismo, o fascista configurou um perfil do que seria o homem ideal, todo aquele que fosse diferente era considerado perigoso e inferior, a afirmação da identidade baseada na confrontação e depreciação do que seja diferente, do outro.
O autor traz como explicação a essa maneira de lidar com o que é diferente, o momento conturbado econômica e politicamente pelo qual passava boa parte da Europa, bem como a rígida e austera política educacional que resultou dessa crise, que condicionou os indivíduos, segundo uma mentalidade de “só os fortes vencerão”, cerceando sua capacidade de amar a si mesmos e aos outros, transferindo essa habilidade para os avanços tecnológicos do mundo capitalista moderno, ou para o coletivo, sublimado na figura do partido e acima de tudo do líder, este último constituindo a proposta fascista de enfrentamento ante a hegemonia capitalista. A ruína das instituições tradicionais que continham em si a idéia de proteção e segurança, lançou um clima de instabilidade social, e na busca pela sobrevivência os ideais de força, autocontrole e temperança perante as atribulações da vida, edificaram uma sociedade na qual a frieza gerava a estranheza com relação a si mesmo e conseqüentemente aos outros, então o campo para um projeto que proponha a eliminação sumária de outros indivíduos que não sejam considerados aptos se transforma em real.
EM DIREÇÃO A UMA TEORIA DO FASCISMO
A discussão acerca de que características modernas resultaram neste movimento que não está restrito ao início e meados do século XX, traz um importante aviso para o aceno do ressurgimento desses movimentos no mundo atual. A fantasia da pertença a uma comunidade que possa render não só a identificação com algo, como também uma segurança frente a um mundo globalizado, no qual o indivíduo parece estar cada vez mais impotente em relação às grandes corporações faz com que seja fundamental se pensar nos paralelos dos fenômenos do passado com os presentes “Limpar o país dos antinacionais (ontem) ou expulsar o imigrante estrangeiro (hoje)...” e como isso deve ser abordado doravante “é um objetivo que apenas restabelece, num nível imaginário, uma ordem voltada para o passado, expulsa o debate em torno das causas do mal-estar e identifica um alvo para a realização do ódio”.
Bibliografia:
SILVA, Francisco C. T. da. “Os fascismo” In.: REIS FILHO, Daniel Aarão. Século XX. Vol. II: O tempo das crises. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.
Nenhum comentário:
Postar um comentário