sexta-feira, 23 de maio de 2008
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
26 de maio de 2008
-Texto número 7:
“Sol Negro – Cultos Arianos, Nazismo esotérico e Políticas de Identidade”, de Nicholas Goodrick Clarke
“Conclusão – A política da Identidade”
-“O neonazismo americano, representado por George Lincoln Rockwell e seus sucessores, adotou a percepção nazista dos judeus como o fermento da sociedade liberal, promovendo o comunismo, os direitos civis e a mistura de raças.
-A motivação para o neonazismo na década de 50 teria sido a “oposição branca aos direitos civis para negros”. Ao passo que na Grã-Bretanha, a oposição branca se dirigia primordialmente aos imigrantes oriundos das colônias do império britânico.
- Surgimento do slogan neonazista “White power” nos EUA, desencadeado principalmente por “grupos neonazistas [que] passaram a sugerir que o domínio racial branco estava ameaçado”
-“Apesar de a opinião liberal nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha se opor fortemente ao racismo, diversos fatores na política ocidental agiram para reintroduzir a raça como uma categoria legítima de identificação grupal. Durante a década de 1960, os grupos de poder negro e críticos radicais exigiram o reconhecimento oficial do status de grupo “minoritário” e ação compensatória por parte do Estado.”
-A “ação afirmativa” então passou a favorecer os negros, nos âmbitos em que este grupo fossem considerado histórica ou conjunturalmente prejudicado, em detrimento dos brancos, “um impressionante desvio sem precedentes na tradição anglo-americana de direitos individuais”. “Privilégios oferecidos pelo governo com base na raça,... estimularam o crescimento da extrema direita fascista”
-“O desempenho comparativamente alto das minorias asiáticas na educação e no mercado de trabalho e a sua correspondente baixa representatividade nas estatísticas carcerárias demonstram a fragilidade da atribuição do fracasso dos negros ao racismo dos brancos”
- Par alguns como Savitri Devi, Julius Evola e Miguel Serrano, coube a “adoção da cronologia hindu tem a intenção de esquematizar a curva desse declínio [ queda dos brancos (arianos) em uma era degenerada] até a Kali Yuga com a promessa milenarista de regeneração por intermédi de uma nova era dourada no ciclo das eras”
-“Cultos arianos e nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo.”
-Já a teoria de Francis Parker Yockey “articula uma filosofia mítica da história, na qual as raças européias estão (temporariamente) incapacitadas pelas influência judaicas estrangeiras e impedidas de cumprir seu destino em um poderoso novo Império mundial”
-Há ainda, nesse contexto de ressurgimento do nazismo enquanto influência ideológica, a hipótese sugerida por Wilhelm Landig que “elabora uma mitologia neovolkisch das origens na setentrional Thule, para profetizar a recuperação e ressurreição da Alemanha nazista.”
- “Comentadores notaram a ascensão de um novo nacionalismo como uma cultura de resistência às recentes forças de globalização e de imigração. Assim, é altamente significativo eu o culto ariano de identidade branca é mais marcado nos Estados Unidos, onde os desafios do multiculturalismo e da imigração vinda do Terceiro Mundo têm sido maiores”.
- “Em 1980, somente 5% da imigração legal [nos EUA] vinha da Europa, enquanto asiáticos... se aproximavam da metade. A imigração da América Latina (principalmente do México) constituía cerca de 40%... ao mesmo tempo que uma onda de imigração alcançou níveis recordes na década de 1980, ao mesmo tempo que uma onda de imigração hispânica ilegal foi considerada como uma perda de controle sobre as fronteiras da nação”
-A imigração é vista como uma ameaça tanto no âmbito econômico, como no sócio-cultural, com a introdução de novos costumes, crenças, religiões à sociedade antes menos heterogênea.
- “A questão se os Estados Unidos podem realmente assimilar esses imigrantes implora por políticas de bilingüismo e multiculturalismo no sistema educacional”
- “...a extrema direita nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha renovou seu vigor a partir da década de 1980. Essa tendência foi, a princípio, uma surpresa, uma vez que a primeira geração dos líderes neonazistas do pós-guerra estava envelhecendo e a lembrança do desafio do Eixo ao liberalismo ocidental estava passando rapidamente para a História. Entretanto, o surgimento das gangues racistas de skinheads, a música do White Power e a transformação do racismo neonazista em novas religiões populares de identidade branca espelham claramente os crescentes níveis de imigração para países ocidentais e as conseqüentes pressões na direção do multiculturalismo.”
- “Não temos como saber o que reserva o futuro para as sociedades multiculturais do Ocidente, mas a experiência não deu muito certo na Àistria-Hungria, na União Soviética e na Iugoslávia. Os desafios do multirracialismo nos Estados ocidentais liberais são ainda maiores, e é evidente que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade mais difusa contra o liberalismo.”
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Bibliografia:
GOODRICK-CLARKE, Nicholas.“Sol Negro” - Madras
Anatomia do Fascismo - Cap. 7
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
19 de maio de 2008
-Texto número 6: Fichamento do texto: A anatomia do fascismo, de Robert O. Paxton
Capítulo 7 – Outras épocas, outros lugares:
O fascismo ainda é possível
O autor ressalta a importância de dois eventos do início do século XX (“Primeira Grande Guerra e da Revolução Bolchevique”), para a ocorrência do fenômeno fascista. Tendo isso lança as seguintes conjecturas: O fascismo teria acabado?”, e quais condições atuais poderiam propiciar seu ressurgimento, existem tais condições?
Conforme demonstra, para alguns autores o fascismo teria sido produto única e exclusivamente das condições críticas do princípio do século XX, e ainda a repulsa que os movimentos fascistas inspiravam quase que consensualmente no período posterior à Segunda Guerra Mundial, seria o obstáculo primeiro ao ressurgimento de movimentos análogos posteriormente, outro obstáculo seria “a crescente prosperidade e a globalização aparentemente irreversível da economia mundial, o triunfo do consumismo mundial”.
Paxton apresenta então os exemplos fatídicos de acontecimentos que contrariam essas expectativas “... limpeza étnica nos Balcãs; a exacerbação dos nacionalismos excludentes no Leste Europeu pós-comunista; a disseminação da violência dos skin-heads contra os imigrantes...”. Bem como o sucesso eleitoral de grupos de extrema direita em diversos países europeus, sejam eles ligados direta ou indiretamente ao neofascismo, ou ainda que contenham características semelhantes meramente.
“O fato de acreditarmos ou não na recorrência do fascismo depende. é claro, do que entendemos por fascismo.” Segundo Payne, citado por Paxton: “ ‘o fascismo histórico específico não poderá nunca ser recriado’, embora os fascistas continuem existindo, em números reduzidos, e embora possam vir a aparecer ‘formas novas e parcialmente relacionadas de nacionalismo autoritário’”.
Entretanto, como na Europa do pós-guerra assumir-se fascista provavelmente significaria insucesso nas urnas, os líderes de partidos com tendências semelhantes assumiram uma habilidade em desviar seus discursos desses rumos a ponto de não serem comparados senão pelos mais argutos analistas, geralmente oriundos da imprensa crítica. Embora com o passar das gerações que testemunharam de perto os horrores nazi-fascistas, esses tabus tenham vindo se amenizando. Provavelmente “algum movimento futuro disposto a ‘abrir mão das instituições livres’... tendo como meta a reunificação, a purificação e a regeneração de algum grupo prejudicado, decerto daria a si mesmo um outro nome”.
“Se entendermos o renascimento de um fascismo atualizado como o surgimento de algum tipo de equivalente funcional, e não de uma repetição exata, essa recorrÊncia é de faro possível. No entanto teríamos que entendê-la por meio de uma comparação inteligente da forma como funciona, e não de uma atenção superficial a seus símbolos exteriores.”
A Europa ocidental desde 1945
O fascismo embora taxado pela grande maioria da população mundial como hediondo após o conhecimento público dos horrores cometidos por seus seguidores durante a Segunda Guerra, contava com muitos militantes fiéis e assumidos após 1945. Todavia os grupos que obtiveram mais sucesso não proclamavam publicamente suas influências fascistas, um exemplo disso era o ‘Movimento Sociale Italiano’, que só obteve maior sucesso após a morte de seu líder Giorgio Almirante, assumidamente fascista, e a mudança de nome para ‘Alleanza Nacionale’, mascarando sua faceta fascista.
Mas o “neofascismo saudosista... [na] Grã-Bretanha e [na] França sofreram a humilhação de perder seus impérios e sua posição de grandes potências. Para piorar as coisas, seus esforços finais visando ganhar tempo para seus impérios levaram-nas a aceitar imigrações maciças vindas da África, do sul da Ásia e do Caribe.”
Dentre as crises que possibilitaram uma nova emergência da extrema-direita, que tomava o lugar de oposição antes assumido pelos comunistas, decorrente do fim da União Soviética e seu bastião que dava a idéia de possibilidade do comunismo, surgiu um novo, e mais adequado ao presente, ‘bode expiatório’, comum à quase todos os países europeus: os imigrantes.
No continente que havia vivido diretamente o fim da Segunda Grande Guerra com um sentimento de repulsa frente ao fascismo, estava surgindo um movimento muito semelhante à este antes repudiado, em fins do século XX: “Inesperadamente... movimentos e partidos de direita entraram em um período de crescimento os anos 80 e 90. Embora alguns filhos tenham levado adiante a mesma causa de seus pais, novos recrutas, dando voz a novas queixas, trouxeram novo ímpeto à direita radical européia. Algo que se assemelhava ao fascismo nem de longe estava morto, na entrada do século XXI.”
Podemos identificar, neste novo contexto de surgimento de movimentos nacionalistas radicais de extrema direita, também uma crise econômica que irá potencializar suas ações: “O declínio dos setores fabris tradicionais foi um processo longo, mas assumiu proporções de crise após o primeiro e o segundo ‘choques do petróleo’, de 1973 e 1979. Enfrentando a competição dos ‘tigres asiáticos’, com seus custos de mão-de-obra inferiores, sobrecarregados com sistemas de seguridade social caros e com falta de estoques de energia, que vinha ficando cada vez mais cara, a Europa, pela primeira vez desde a década de 30, passou a enfrentar o desemprego estrutural de longo prazo.” Daí surge a nova postura relativa à imigração: Em tempos de fartura, os imigrantes eram bem vindos, porque vinham assumir o trabalho sujo recusado pela força de trabalho nacional. Mas quando, pela primeira vez desde a Grande Depressão, os europeus passaram a enfrentar o desemprego estrutural, os imigrantes deixaram de ter boa acolhida.”
Tidos como ameaça, assim como os judeus no nazismo, os imigrantes passaram a ser vistos como os elementos que colocariam em perigo a economia, bem como a identidade nacional, por introduzir o multiculturalismo aos países que os receberam. A luta contra a alteridade é um foco comum desses movimentos recentes ao fascismo histórico, a principal mudança teria sido o maior inimigo, sai de cena o judeu, entra o imigrante. O grupo mais radical a se colocar contra essa classe, são os skinheads, e esses reivindicam abertamente sua admiração e identificação com o ideário fascista. Esse grupo extremamente violento, composto em sua maioria por jovens desocupados que se sentem ameaçados pelos grupos estrangeiros, em geral são desaprovados consistentemente pela sociedade, mas cabe a questão, suscitada no texto, de que em uma situação de tomada do poder por grupos radicais que se propusessem a acabar com os problemas nacionais, estes não seriam vistos como um mal necessários à resolução do problema e tolerados pela população?
A população dos Estados de bem-estar social, questionavam a legitimidade do acesso dos imigrantes e gerações posteriores destes, aos benefícios estatais, questionavam acima de tudo se essa leva de imigrantes e seus herdeiros deveriam ser considerados cidadãos.
“A Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, foi o primeiro partido de extrema-direita da Europa a encontrar a fórmula certa para as condições da época posterior a 1970” Alcançando índices eleitorais, que não eram atingidos por partidos de extrema-direita desde a década de 1940.
“A Frente Nacional centrava-se intensamente na questão dos imigrantes e nas questões relacionadas a ela, como desemprego, lei e ordem e defesa cultural. Conseguiu reunir num mesmo grupo uma grande variedade de pessoas, posicionando-se então para se transformar num grande partido de base ampla e direcionado ao protesto. No entanto apareceu como uma ameaça direta à democracia.”. Partido que conseguiu índices significativos nas eleições, atingindo o Estágio 2, descrito por Paxton no primeiro capítulo.
“Le Pen conseguiu tirar partido de uma forte onde de ressentimento contra os imigrantes, o crime de rua e a globalização, o que o levou a um chocante segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais de abril de 2002, com 17% dos votos.”
Já no caso italiano, os “democrata-cristãos (DC) [que] ocupavam o poder de forma ininterrupta desde 1948”, foram substituídos no governo italiano pelo Forza Italia, do magnata da mídia Silvio Berlusconi, que fez aliança em seu governo com os antes assumidamente influenciados pelo ideário fascista da Alleanza Nazionalle, que para obter este estatuto, tiveram que trocar de nome e mascarar, suas influências, ou se “normalizar”.
“Uma oportunidade semelhante se abriu na Áustria, após vinte anos durante os quais os socialistas e o Partido do Povo (de católicos centristas moderados) trocavam cargos e favores entre si num acerto de divisão de poder que ficou conhecido como a Proporz... [o] Partido da Liberdade de Haider, ... [ constituía a] única opção não-comunista à Proporz.
“...haveria alguma justificativa para que esses movimentos de segunda geração fossem chamados de fascistas, ou mesmo de neofascistas, diante da veemente negativa deles próprios? Hoje em dia, na Europa Ocidental, existe uma relação aparentemente inversa entre uma aparência abertamente fascista e o sucesso nas urnas. Por essa razão, os líderes dos movimentos e dos partidos de extrema-direita que alcançara, algum grau de sucesso se esforçam ao máximo para se distanciar da linguagem e da imagem do fascismo.”
“Nem todos os movimentos de extrema-direita da Europa-Ocidental seguiram a estratégia da normalização”. “A Frente Nacional britânica, que veio mais tarde, estava entre os partidos de extrema-direita mais abertamente racistas”. “As tentações de normalização eram maiores na França, na Itália e na Àustria, que na Grã-Bretanha e na Bélgica”. Somente a “imprensa sempre vigilante [teve perspicácia e coragem] para acusar de criptofascismo a Le Pen [França], Haider [Áustria] e Fini [Itália].”
“Uma vez que a antiga clientela fascista não tinha lugar para onde ir, ela se satisfazia com insinuações subliminares, seguidas por desmentidos públicos”. O que engrossava ainda mais as fileiras destes partidos ‘criptofascistas’, com fascistas convictos.
“Nos programas e nas declarações desses partidos ouvem-se ecos dos temas fascistas clássicos: medo da decadência e do declínio; afirmação da identidade nacional e cultural; a ameaça à identidade nacional e à ordem social representada pelos estrangeiros inassimiláveis; e a necessidade de uma autoridade mais forte para lidar com esses problemas.”
“O elemento cuja ausência é mais notada, é o clássico ataque fascista à liberdade de mercado e ao individualismo econômico, a ser sanado pelo corporativismo e pela regulamentação dos mercados.”
“Uma outra faceta do s programas do fascismo clássico ausente na direita radical da Europa do pós-guerra é o ataque fundamental às constituições democráticas e ao Estado de direito”
Nem tampouco têm em seus programas projetos de “expansão nacional”, com exceção “os nacionalismo expansionistas dos Bálcãs, que pretendiam criar a Grande Sérvia, a Grande Croácia e a Grande Albânia.”
“Um contraste muito mais nítido surge quando comparamos as circunstâncias de hoje com as da Europa do entreguerras. Com exceção da Europa Central e do Leste Europeu pós-comunistas, a maioria dos europeus, desde 1945, vem desfrutando de paz, de prosperidade, de uma democracia operacional e de ordem interna. A democracia de massas já deixou para trás a fase de seus primeiros e vacilantes passos, como ocorria na Alemanha e na Itália da 1919. A revolução Bolchevique já não representa sequer uma sombra de ameaça. A competição global e a cultura popular americanizada, que ainda são causa de inquietação para muito europeus, parecem ser manejáveis dentro dos sistemas constitucionais vigentes, não havendo necessidade de “abrir mão das instituições livres”. Em suma, ainda que a Europa Ocidental, a partir de 1945, tenha tido “fascismos-herdeiros”, e ainda que, a partir da década de 1980, uma nova geração de partidos de extrema-direita, normalizados, apesar de racistas, tenha conseguido até mesmo ingressar em governos locais e nacionais na qualidade de parceiros minoritários, as circunstâncias, hoje em dia, são tão diferentes da Europa do entreguerras que não há abertura significativa para partidos filiados ao fascismo clássico.”
O leste europeu pós soviético
“Nenhum lugar do planeta produziu, em anos recentes, uma coleção mais virulenta de movimentos radicais de direita que o Leste europeu pós-soviético e os Bálcãs.”
“Quando, após 1991, o experimento pós soviético com a democracia eleitoral e a economia de mercado trouxe resultados desastrosos para a Rússia, movimentos como o Pamyat [de memória] resgataram” uma rica tradição eslavófila: “União do Povo Russo [URP] era um movimento de 'todas as classes', dedicado ao revivescimento e à unificação, que queria salvar a Rússia da contaminação pelo individualismo e pela democracia ocidentais...”
“Todos os Estados sucessores do Leste Europeu, a partir de 1989, tiveram movimentos de direita radical, embora a maioria deles, felizmente tenha permanecido fraca. A democracia conturbada e as dificuldades econômicas, somadas à contestação de fronteiras e à permanência de minorias étnicas descontentes, ofereciam solo fértil a esses movimentos”
“Foi na Iugoslávia pós-comunista que surgiu o equivalente mais próximo das políticas nazistas de extermínio já ocorrido na Europa do pós-guerra.” A fragmentação dos segmentos Sérvio, Croata e Albanês, que buscavam, principalmente entre esses dois últimos aniquilar o outro de seus territórios, gerou o “que o Ocidente veio a chamar de 'limpeza étnica'”.
O fascismo fora da Europa,
“Alguns observadores duvidam que o fascismo possa existir fora da Europa. Argumentam que o fascismo histórico específico exigia as pré-condições especificamente européias da revolução cultural do fim do século, da intensa rivalidade entre os novos pretendentes ao status de Grande Potência, do nacionalismo de massas e da disputa pelo controle das novas instituições democráticas.”
“Muitos observadores esperavam que o sistema do apartheid (segregação), instaurado em 1948, viesse a enrijecer sob pressão a ponto de se configurar em algo próximo ao nazismo.”
“A América Latina, entre 1930 e inícios da década de 1950, chegou mais perto de qualquer outro continente que não a Europa do estabelecimento de algo próximo a regimes genuinamente fascistas.” Entretanto,
é preciso atentar para o “alto grau de pura imitação [que] ocorreu durante o período de ascensão do fascismo na Europa. Os ditadores locais tendiam a adotar a cenografia fascista, na moda nos anos 1930, ao mesmo tempo em que copiavam soluções para a Depressão tanto do New Deal de Roosevelt, quanto do corporativismo de Mussolini.”
“A avaliação das ditaduras latino-americanas pela ótica do fascismo, é uma empreitada intelectual perigosa. Na pior das hipóteses, pode se converter num exercício de rotulação vazia. Na melhor, pode tornar mais nítida nossa imagem do fascismo clássico. Para que a comparação seja correta. Temos que distinguir entre os diversos níveis de similaridades e de diferenças. As similaridades são encontradas nos mecanismos de poder, nas técnicas de propaganda e na manipulação de imagens, ocasionalmente, em políticas específicas tomadas de empréstimo ao fascismo, tais como a organização corporativista da economia. As diferenças se tornam mais aparentes quando examinamos os ambientes sociais e políticos e a relação desses regimes com a sociedade”
“Tanto Vargas como Perón, tomaram o poder de oligarquias, e não de democracias falidas, e ambos, ampliaram a participação política”
“A visão de Hitler de uma sociedade perfeita, maculada por comunistas e judeus (que em sua mente eram idênticos), teve paralelos nos integralistas brasileiros e nos nacionalistas argentinos, que, no entanto, foram marginalizados por Vargas e Perón”
“Nem Vargas nem Perón se sentiram obrigados a exterminar um grupo específico. Sua polícia, embora brutal e incontrolada, punia inimigos individualmente identificados, não tendo como meta a eliminação de categorias inteiras.”
“As ditaduras latino-americanas se encaixam melhor na definição de ditaduras desenvolvimentistas nacional-populistas que usavam emblemas fascistas, talvez distantemente assemelhadas à de Mussolini, mas de modo algum à de Hitler (apesar de sua simpatia pelo eixo, durante a guerra).”
“O Japão, o mais industrializados dentre os países não-ocidentais, e também o que mais sofreu influência da adoção seletiva das coisas ocidentais, foi outro regime não-europeu com maior freqüência chamado de fascista. Durante a Segunda Guerra Mundial, os propagandistas aliados não hesitaram em identificar o Japão imperial com seus parceiros do eixo. Atualmente, embora a maioria dos acadêmicos ocidentais veja o Japão imperial como distinto do fascismo, os estudiosos japoneses, e não apenas os marxistas, costumam interpretá-lo como um “fascismo de cima para baixo”.
“Na década de 1920, o Japão havia dado uma série de passos em direção à democracia. Em 1926, todos os homens adultos receberam o direito de voto”
“Dentre as opiniões que eram então ouvidas, estava a Kita Ikki, que já foi chamado de um autêntico fascista japonês. O Esboço Geral das medidas para a Reconstrução do Japão (1919), de autoria de Kita, defendia a imposição estatal de restrições aos industriais e aos grandes proprietários de terras, que ele via como a principal barreira à unificação e à regeneração nacionais. Segundo Kita, depois de libertado da discórdia e dos obstáculos ao progresso criados pelo capitalismo competitivo, o Japão tornar-se-ia o centro de uma nova Ásia independente do domínio ocidental.”
A jovem democracia japonesa não sobreviveu à crise de 1931. A Grande Depressão já havia trazido pobreza para o campo e, em setembro de 1931, os líderes japoneses usaram de um pretexto para invadir a Manchúria.
“houve várias execuções, entre elas a de Kita Ikki. O próprio imperador, desse modo, pôs fim ao que foi chamado de o “o fascismo vindo de baixo” japonês.”
”Em julho de 1937, os militares japoneses provocaram um incidente na China, dando início a oito anos de guerra total no continente.”
”empossado no cargo de primeiro-ministro em julho de 1940, o príncipe Konoe estabeleceu uma ”Nova Ordem” Interna, de caráter explicitamente totalitário, cujo objetivo era colocar o Japão na liderança do que veio a ser chamado de ”Esfera de Co-Prosperidade do Grande Leste Asiático.”
”Fascistas autênticos surgiram no Japão em fins da década de 1930, na época em que os nazistas alcançavam um ofuscante êxito.”
”Em suma, o governo japonês, decidiu-se por um exame seletivo de cardápio fascista, adotando algumas de suas medidas de organização econômica corporativista e de contrôle popular, numa ”revolução seletiva” implementada pela ação estatal, ao mesmo tempo que suprimia o ativismo popular desordenado dos movimentos fascistas autênticos”
”Embora nao haja dúvida qaunto ao fato do Japão imperial se inspirar em modelos fascistas e compartilhar características importantes com este, a variante japonesa era imposta pelos governantes, faltando-lhe a base de um partido de massas único ou de um movimento popular.”
”semsemelhanças de curto prazo entre as situações da Alemanha e do Japão no século XX: a vívida percepção da ameaça representada pela União Soviética (...) e a necessidade de adaptar rapidamente suas hierarquias políticas e sociais tradionais à política de massas. O Japão imperial era ainda mais eficiente que a Alemanha no uso de métodos modernos de mobilização e propaganda, visando integrar sua população sob a autoridade tradicional.”
”Por fim, o Japão, embora indubitavelmente influenciado pelo fascismo europeu, e apesar também de algumas analogias estruturais com a Alemanha e a Itália serem possíveis, enfrentava problemas menos críticos que aqueles dois países europeus. Os japoneses nao se defrontaram com a ameaça de uma revolução iminente e não tinha que superar a derrota externa nem a desintegração nacional (embora eles temesse e se ressentissem dos obstáculos colocados pelo Ocidente à sua expansão na Ásia). Apesar de o regime lançar mão de técnicas de mobilização de massas, seus líderes não enfrentavam a competição de partidos oficiais ou de movimentos de base.”
”Os regimes ditatoriais da África e da América Latina que deram sustentação aos interesses norte-americanos ou europeus (extração de recursos, privilégios de investimentos, apoio estratégico durante a guerra fria) e, em troca, foram apoiados por protetores ocidentais, já foram chamados de ”fascismos clientes”, fascismos substitutos” ou ”fascismos coloniais”.”
”Estes Estados-Clientes, entretanto, por mais odiosos que tanham sido, não podem ser chamados de fascistas porque nem tinha uma base de aclamação popular nem eram livres para se engajar em expansionismo territorial. Caso permitissem a mobilização da opinião pública, estariam se arriscando a vê-la se voltarcontra seus patrões estrangeiros e contra eles prórpios. A melhor definição para esses regimes seria o de ditaduras ou tiranias tradicionais com apoio externo.”
”movimentos que empregam temas autenticamente americanos de maneira funcionalmente assemelhadas ao fascismo. A Klan ressurgiu na década de 1920, incorporou um antisemtismo virulento e se espalhou pelas cidades e pelo Meio-Oeste americano. Nos anos 1930, o padre Charles E. Coughlinreuniu uma audiência radiofônica estimada em 40 milhões, em torno de uma mensagem anti-comunista, anti-Wall Street, a favor da não-regulamentação das doações partidárias e, após 1938, também anti-semita, transmitida de sua igreja situada na periferia de Detroit.”
”É óbvio que os Estados Unidos teriam que sofrer reveses de proporções catastróficas, levando a uma polarização intensa, antes de esses grupos marginais conseguirem encontrar aliados poderosos e ingressar na corrente central da vida política.”
”A partir de 11 de setembro de 2001, as liberdades civís vêm sendo restringidas em nome da guerra patriótica contra os terroristas, sob os aplausos da população. A linguagem e os símbolos de um fascismo autenticamente americano, é claro, teriam pouco ou nada a ver com os modelos europeus originais.”
”Num fascismo americano, não haveria suásticas, mas sim Estrelas, Listras e cruzes cristães, e não haveria saudações nazistas, mas sim a recitação de Juramento da Lealdade. Esses símbolos, em si, não contêm sequer um sopro de fascismo, é claro, mas um fascismo americano os transformaria num teste obrigatório para a detecção do inimigo externo.”
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Bibliografia:
PAXTON, Robert O.“A anatomia do fascismo” São Paulo: Paz e Terra, 2007.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Modernidade e holocausto
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
12 de maio de 2008
-Texto número 6-
Fichamento do texto: Modernidade e Holocausto
Capítulo 4 – Singularidade e normalidade do holocausto
Bauman demonstra sua perspectiva sobre o fenômeno nazista, particularmente o holocausto, descrevendo-o como uma possibilidade viável e mais do que isso característica da moderna civilização ocidental. Bauman e seus colegas que partilham do mesmo ponto de vista, referidos no texto, vêm contrariar a opinião, para eles mais cômoda e facilmente aceitável, de que o holocausto foi um evento extraordinário, uma infelicidade fruto de infelizes acasos sucessivos.
O problema
O autor definirá “duas razões pelas quais o holocausto... não pode ser visto como assunto de interesse exclusivamente acadêmico”. A primeira razão seria o pequeno impacto, relativamente à crueldade do fenômeno, causado por este nos alicerces do pensamento acadêmico, que tratando o evento como uma exceção dentro de sua estrutura social, não pode dar conta das circunstâncias que criaram tal marco histórico. A segunda razão vinculada diretamente à primeira sugere que, levando-se em consideração a maneira como o tema foi trabalhado “as condições que um dia deram origem ao holocausto não foram radicalmente transformadas”, o horror do holocausto não foi uma anormalidade dentro das condições modernas portanto poderia se repetir. Ainda nesse segmento do capítulo, o autor apresentará questões, que são melhor desenvolvidas ao longo de todo o texto, como os ideais e as práticas nazistas “não apenas se revelaram plenamente compatíveis com a civilização moderna, como foram condicionados, criados e fornecidos por ela”. E mais do que isso, que a moderna civilização nada pôde fazer para evitar esse terrível exemplo, do encontro e maximização de vários idos ideais modernos sob uma ideologia abominável, que resultou numa grande desgraça. Genocídio moderno Bauman contra-argumentará a noção de que a ocorrência do holocausto teria sido uma falha dentro do projeto moderno de civilização, apontando as particularidades do genocídio nazista, frente a massacres anteriores da história. No quesito 'assassinato em massa' bem como em todos os atuais, a modernidade supera seus apres antepassados em número, eficiência, organização e planejamento. Características enaltecidas e intrínsecas á civilização moderna. 2 O vencimento das emoções, tidas como inferiores e exterminadas pelo processo civilizador, dão lugar ás motivações de ordem pragmática: realiza-se o genocídio de maneira fria, desapaixonada, por este constituir “um meio para tingir um fim, [como] uma necessidade que decorre do objetivo último” no caso alemão, a nação de raça pura.
Peculiaridade do genocídio moderno
“O curto circuito... entre uma elite de poder ideologicamente obcecada e as tremendas facilidades de ação racional e sistêmica desenvolvidas pela sociedade moderna é de ocorrência relativamente rara”, “È único [o holocausto moderno] entre outros casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face á rotina da sociedade moderna porque traz á luz certos fatores ordinários da modernidade que normalmente são mantidos á parte”. Esses dois trechos do texto, sintetizam bem a peculiaridade do holocausto nazista, descrita mais largamente ao longo do texto, que reúne em si elementos comuns á civilização moderna, apenas a concomitância de todos eles seria inusitada. Importante trazer do texto também o elemento dentre os descritos acima que seria o “mais crucial dos fatores constituintes do holocausto: os padrões tipicamente modernos, tecnológico burocráticos , de ação e a mentalidade que eles geram, institucionalizam, mantém e reproduzem”.
O discurso ocidental em sua auto-apologia, irá expressar a “imagem popular da sociedade civilizada [que] é mais que qualquer outra coisa, a da ausência de violência...” Entretanto conforme Bauman, essa violência setorizada e camuflada (somente o Estado poderia fazer uso da violência a partir de então, violência esta inserida e justificada pelos padrões modernos), tomaria proporções assustadoras tendo como base os ideais “de nosso tempo”: “o terrorismo e a tortura já não são mias instrumentos de paixões; viraram instrumentos da racionalidade política”
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A setorização do projeto ideológico e da prática que o acompanha, merecem atenção especial á medida que tornam todo o processo, menos feio para a grande maioria daqueles que o realizam, mais nebulosa a face dos que poderiam ser culpabilizados, o autor usa o exemplo dos operários de uma fábrica para ilustrar esse ponto: “Será que os operários das indústrias químicas produtores de napalm se sentem responsáveis por bebês queimados?” Certamente não pois a meticulosa divisão do trabalho faz com que um indivíduo, no caso o operário, não tenha responsabilidades frente às ações resultantes dos empreendimentos da instituição da qual faz parte. O indivíduo mecanizado terá em mente a preocupação com a otimização de seu serviço e não com o produto final do mesmo, uma vez que “Numa divisão funcional do trabalho tudo o que alguém faz é em principio multifinal, isto é pode ser combinado e integrado dentro de mais de uma totalidade definidora de sentido”. Os exemplos aludidos no parágrafo anterior (“substituição da responsabilidade moral pela técnica” e a “meticulosa dissecação e separação funcional das tarefas”) Proporcionavam o distanciamento moral necessário á realização das tarefas mais vis “o resultado é a irrelevância dos padrões morais para o sucesso técnico da operação burocrática” 3
Desumanização dos objetos burocráticos
“Outro efeito igualmente importante do contexto da ação burocrática é a desumanização dos objetos da operação burocrática, a possibilidade de expressá-los em termos puramente técnicos, éticamente neutros” ... “graças ao distanciamento, os objetos visados pela operação burocrática podem e são reduzidos a um conjunto de medidas quantitativas” Que visem exclusivamente ao lucro, sendo irrelevantes os usos posteriores dos produtos que originam esse lucro. Sob o prisma burocrático o gênero humano “perde sua identidade”, se torna mais um número, que caso precise ser eliminado, não despertará problemas de natureza ética ou moral aos participantes do processo de eliminação, que será tão somente uma tarefa a ser eficientemente realizada.
Essa desumanização é mesmo inerente ao burocratismo e nota-se em sua expressão mais comum, cotidiana, menos extraordinária, bem como nos casos extremos. “A conclusão geral é que o modo de ação burocrático, tal como desenvolvido no curso do processo civilizador, contém todos os elementos técnicos que se revelaram necessários á execução de tarefas genocidas”.
O papel da burocracia no holocausto
Uma das características que o autor aponta como sendo tipicamente modernas, é a eficiência na realização de um projeto, após a delimitação de seu objetivo. O objetivo do projeto nazista era a implantação de uma nação judenrein, ou seja, livre de judeus. Como demonstra Bauman, os historiadores que analisaram tal evento, em geral se dividiam entre "intencionalistas" e "funcionalistas". O autor se encontra entre esses últimos, que compartilham da visão de que após a deliberação do objetivo a burocracia supera seus propulsores humanos e toma uma capacidade irrefreável no sentido de atingir sua meta com a maior eficiência, baseada na relação custo-benefício. Logo, pode não ter sido -provavelmente não foi- desde o principio a intenção dos nazistas de exterminar as populações judias com as quais entrava em contato, (os intencionalistas crêem que sim), mas a máquina burocrática que visava a excluí-los de seu espaço vital, tomou proporções que não mais poderiam ser controladas por uma ou outra instituição que tenha desencadeado.
Falência das salvaguardas modernas
"A consciência da ameaça constante contida no desequilíbrio caracteristicamente moderno de poder tornaria a vida insuportável, se não fosse pela nossa confiança nas salvaguardas..." Mesmo aqueles que não compactuavam da manifestação nacional-socialista que arrebatou a Alemanha, e que tacitamente eram contra sua violência desmedida, se sentiam imobilizados frente a um movimento que não era detido pelas instituições civilizadas que deveriam manter a paz e ordem social.
A setorização da violência cujo uso passou a ser permitido somente a uma menor parte da sociedade regida pelo Estado, deixou os indivíduos, civilizados, gentis e pacatos, que não sabiam como reagir a uma expressão de violência direta, à mercê dela mesma, pois estes não mais tinham força enquanto atores, e as instituições que representavam seu bem estar e 4 segurança pessoal, ha
Diante de uma equipe inescrupulosa que sobrecarregava a poderosa máquina do Estado moderno com seu monopólio de violência e coerção física, as mais decantadas conquistas da civilização moderna falharam como salva-guardas contra a bárbarie. A civilização mostrou-se incapaz de garantir a utilização moral dos terríveis poderes que trouxe à luz."
Conclusões
"Na ausência de autoridade tradicional, os controles e contra-pesos capazes de manter o corpo político longe dos extremismos só podem ser fornecidos pela democracia política." Em uma situação crítica "o poder político torna-se... praticamente a única força por trás da ordem emergente". "...acentuada supremacia do poder político em relação ao poder econômico e social, do Estado sobre a sociedade." "As condições modernas tornaram possível a emergência de um Estado pleno de recursos, capaz de substituir toda a rede de controles sociais e econômicos pelo comando político e a administração. Lembremos que a ordem moderna é uma era de ordem artificial e de grandiosos projetos societários..."
Um dos principais ideólogos do nacional-socialismo, R. W. Darré, citado no livro de Bauman, fala das melhorias que devem ser feitas na sociedade, usando a analogia de um jardim cuidado e a eliminação das ervas daninhas, Bauman reflete sobre a pertença e representação desse pensamento ao quadro ideário moderno: "as ambições de "melhoria da realidade" que são a essência da atitude moderna e que só os recursos do poder moderno nos permitem assumir seriamente" "No que diz respeito à modernidade, o genocídio não é nem uma anormalidade nem uma disfunção. Ele mostra do que é capaz a tendência racionalizante do planejamento moderno se não controlada e abrandada..."
Bauman termina o capítulo com uma constatação em tom de aviso, que relaciona os crescentes processos de modernização tecnológica combinada com a desumanização oriunda desses, que só tornaram holocaustos realidades mais próximas e assustadoras paralelamente ao avanço técnico: "Parece haver menos esperança que antes em poder contar com as garantias civilizadas contra a desumanidade para controlar a aplicação do potencial instrumental-raciona humano, uma vez que o cálculo da eficiência foi agraciado com a suprema autoridade para decidir propósitos políticos."
Bibliografia:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998. Capítulo: “Singularidade e normalidade do holocausto” p. 106 a 141
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
07 de abril de 2008
-1o Filme-
Homo Sapiens 1900 – de Peter Cohen
O Filme trata do fenômeno cientificista surgido em princípios do século XX, denominado eugenia, ou higiene racial. Que significa da limpeza étnica, baseada na superioridade de uma raça ou linhagem, em relação à outras.
A eugenia, conforme retratado no filme, pode ser efetivada e era idealizada por seus teóricos, de duas maneiras: eugenia positiva e eugenia negativa. A primeira seria o benefício e procriação da raça superior pela proibição da reprodução entre raças inferiores, bem como o estímulo a formação de casais puros e de raças consideradas boas, que dessa forma gerariam uma prole melhor que as outras. Já a eugenia negativa, previa a aniquilação daqueles que constituíssem, segundo os parâmetros estabelecidos uma raça inferior.
A eugenia foi tomada como política por diversos movimentos de grande força do início até meados do século XX, dentre esses movimentos podemos identificar o nacional-socialismo, o soviético, o fascismo italiano e outros.
Um dos argumentos para a prática da eugenia, nesse caso oriundo da Suécia, era "o bem da nação acima do individual", pois com essa prática se imaginava que toda uma geração de cidadãos mais aptos e mais belos seria continuamente perpetuada.
Embora na união soviética o Mendelismo tenha sido declarado inverossímil, principalmente por ser considerado contra-revolucionário, e o Lamarckismo e sua idéia de que é possível que características adquiridas fossem herdadas, houvessem sido amplamente aceitos e divulgados em determinado período, a eugenia de tipo positivo, a busca pelas características físicas que faziam de algumas pessoas, nesse caso os grandes ícones do movimento socialista e do partido soviético, superiores às outras, e a conseguinte procriação entre estas para a criação de uma sociedade mais apta, tornou-se quase uma obsessão no governo soviético.
Uma das grandes diferenças entre o ideário eugênico alemão e soviético desse período, era que este último privilegiava os atributos intelectuais, enquanto que o primeiro visava principalmente a reprodução da beleza, e do padrão estético considerado superior. O partido alemão inclusive foi o primeiro a adotar a higiene racial em seu programa. Embora não tenha sido seu inventor como muito se pensa.
Para os bolcheviques, a eugenia só poderia ser plenamente realizada no Estado socialista, após a abolição da instituição da família. Essas características geraram uma contradição na Alemanha nazista, pois a eugenia positiva e a procriação determinada pelo Estado, iam contra os preceitos vinculados à tradição da família, tão fortes na Alemanha e inclusive característicos do Partido Nazista. Tal ato seria a separação artificial de procriação e amor.
Importante ater-se que muitas leis de eugenia só seriam revogadas na Suécia, 3 décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, o que nos deixa uma pista sobre como foi o processo de desnazificação ou de combate aos resquícios fascistas na Europa do pós-guerra.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Anatomia do Fascismo - Capítulo 8
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
07 de abril de 2008
-Texto número 3-
Fichamento do texto: A anatomia do fascismo, de Robert O. Paxton
Capítulo 1 - INTRODUÇÃO:
Paxton traz um foco de estudo, que engloba tanto os projetos fascistas bem sucedidos, quanto aqueles que existiram enquanto teoria somente, e ainda um terceiro caso que é o dos regimes que se instauraram no contexto de invasão. numa análise dinâmica da extensão desse fenômeno, perpassando determinados estágios nos quais podemos enquadrar a maioria desses movimentos. O autor optou por definir o fascismo, somente neste último capítulo do livro, após examinar detida e comparadamente, seus exemplos históricos.
Interpretações conflitantes
Nesta altura do texto Paxton irá trazer as diferentes interpretações do fenômeno, tanto contemporâneas a ele, quanto posteriores. A principio, o autor trata da dificuldade por parte de alguns liberais em perceber no Fascismo, características tornadas viáveis pela conjuntura social na qual estavam inseridos, e não por atos esparsos de “meliantes que chegaram ao poder”, idéia que projeta a imagem de que tais eventos ocorreram por acaso. A segunda leitura que o autor traz e da qual discorda, é a marxista, que conforme a determinação da ‘Terceira Internacional’, regida por Stálin, via o fascismo como nada mais que “um instrumento do capitalismo”, visão que, segundo o autor, ignora e tende a reduzir a complexidade dos inúmeros aspectos fascistas, bem como a “escolha humana”, ao “resultado inevitável [grifo meu] de alguma crise insuperável de superprodução capitalista.”. Após esta, o autor trabalhará mais uma vez em cima da interpretação liberal, que coloca os grandes capitalistas, como meramente vítimas desses regimes, ignorando “as vantagens mútuas” Entre ambos e supervalorizando a fala fascista, independente de sua atuação prática. Paxton introduz a leitura psicanalítica do fenômeno por meio da contestação de um lugar comum de fala, que trata os ícones fascistas como loucos. Levanta o questionamento de que se estes líderes eram de fato loucos, seu público que o seguia voluntariamente, mereceria mesma preocupação de estudos psicológicos. Nesta linha diversos teóricos psicanalistas, trouxeram a leitura desses movimentos, como fruto de uma séria repressão sexual. O autor contraporá este argumento, lembrando que a repressão sexual nos países onde o fascismo se manifestou, não era diferente da grande maioria do resto do mundo neste período. A última leitura que Paxton trará será a sociológica, em dois vieses, o primeiro tratado será o do sociólogo Talcott Parsons, que sugere que o fascismo tenha surgido em função das “tensões provocadas por um desenvolvimento econômico e social desigual”, “Parsons afirmava que, em países que se industrializaram de maneira rápida e tardia, como a Alemanha e a Itália, as tensões de classe eram particularmente agudas, e as soluções de compromisso eram bloqueadas pelas elites pré-industriais sobreviventes”, a outra abordagem sociológica era a de Hannah Arendt: “o nivelamento urbano e industrial ocorrido a partir do século XIX havia produzido uma sociedade de massas atomizada, na qual os fornecedores de ódio simplistas encontravam audiências prontas, que já não eram refreadas nem pela tradição nem pela comunidade.” Paxton traz em confronto a este último argumento, a lembrança de que a sociedade da Alemanha de Weimar por exemplo, era inteiramente dividida em pequenas secções de diversas naturezas, que iam desde grupos religiosos a corais e muitos outros tipos, esses grupos eram majoritariamente divididos entre socialistas e não-socialistas, traço que facilitou a arregimentação pelo partido nacional-socialista desses grupos, ponto fundamental no enraizamento do nazismo. A última leitura sociológica trabalhada no texto é a defendida por Seymor Martin Lipset, que trata do ressentimento das classes médias da época, que não eram tão bem organizadas quanto os dois maiores pólos sociais, os capitalista e o operariado industrial.
A respeito do projeto fascista, Paxton comenta a flutuação intelectual, em decorrência das muitas medidas que diferiam do projeto inicial, quando de sua aplicação prática. E ainda um outro aspecto acerca do projeto, é a larga diferença entre os programas e as práticas fascistas, o exemplo tratado no texto é o pretenso controle total da sociedade fascista. Aí o autor traz mais uma vez a crítica sobre os estudos que se focam sobre os projetos e não analisam a extensão do movimento.
Fronteiras
Neste subcapítulo, Paxton vai traçar a diferença entre o fascismo e outros regimes comumente confundidos com ele. A diferença principal trazida pelo autor entre o fascismo e as tiranias comuns e as democracias pré-domésticas, é configurada na imensa participação das massas no primeiro caso.
O que é o fascismo?
Paxton trará como finalização a definição do fascismo, apresentando características comuns aos diferentes regimes, tendo eles obtido sucesso ou não, em seus diferentes estágios, cabe aqui a enumeração dessas características:
“ • um senso de crise catastrófica, além do alcance das soluções tradicionais;
• a primazia do grupo, perante o qual todo têm deveres superiores a qualquer direito, sejam eles individuais ou universais, e a subordinação dos indivíduos a esses deveres;
• a crença de que o próprio grupo é vítima, sentimento esse que justifica qualquer ação, sem limites jurídicos ou morais, contra seus inimigos, tanto internos quanto externos;
• o pavor à decadência do grupo sob a influência corrosiva do liberalismo individualismo, dos conflitos de classe e das influências estrangeiras;
• a necessidade de uma integração mais estreita no interior de uma comunidade mais pura, por consentimento, se possível, pela violência excludente, se necessário;
• a necessidade da autoridade de chefes naturais (sempre se sexo masculino), culminando num comandante nacional, o único capaz de encarnar o destino histórico do grupo;
• a superioridade dos instintos naturais do líder sobre a razão abstrata e universal;
• a beleza da violência e a eficácia da vontade, sempre que voltadas para o êxito do grupo;
• o direito do povo eleito de dominar os demais, sem restrições provenientes de qualquer tipo de lei humana ou divina, o direito sendo decidido por meio do critério único das proezas do grupo no interior de uma luta darwiniana.”
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Bibliografia:
PAXTON, Robert O.“A anatomia do fascismo” São Paulo, 2007 Paz e Terra.
Anatomia do Fascismo
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
31 de março de 2008
-Texto número 2-
Fichamento do texto: A anatomia do fascismo, de Robert O. Paxton
Capítulo 1 - INTRODUÇÃO:
A invenção do fascismo
Paxton começa seu texto caracterizando o fascismo como “a grande inovação política do século XX”. Fenômeno que veio fazer frente ao liberalismo, conservadorismo e socialismo, este último, representava grande força que polarizou com o fascismo em inúmeros paises, no levante contra o decadente sistema social democrático capitalista.
Explica o surgimento do termo ‘fascismo’, retomando uma tradição romana antiga, termo que foi usado a principio principalmente pelo partido socialista, do qual Mussolini, ícone do fascismo italiano, fez parte, até ficar associado em 1914 ao grupo nacionalista de esquerda, ao qual Mussolini adentrou após sua dissidência socialista.
O fascismo enquanto movimento na Itália, segundo consta no texto, surgiu oficialmente numa conferência na “Piazza San Sepolcro” em Milão, no ano de 1919. Na ocasião o grupo fundador do movimento era composto por veteranos de guerra, sindicalistas e alguns ‘intelectuais futuristas’, que prezavam métodos violentos. “O movimento de Mussolini não se restringia ao nacionalismo e aos ataques à propriedade, mas fervilhava também de prontidão para atos violentos, de antiintelectualismo… e de desprezo pela sociedade estabelecida”. Do dia da reunião que inaugurou o fascismo italiano, com atos violentos, a invasão seguida de destruição de um jornal socialista pela horda de Mussolini, passaram-se apenas três anos até que o Partido Fascista tomasse o poder.
“Movimentos semelhantes vinham surgindo na Europa do pós-guerra, independentes do fascismo de Mussolini, mas expressando a mesma mistura de nacionalismo, anticapitalismo, voluntarismo e violência ativa contra seus inimigos, tanto burgueses quanto socialistas.”, o autor cita o exemplo da Alemanha, cujo partido de cunho teórico semelhante ao italiano atingiu o poder onze anos depois.
Ao longo do texto o autor trará a baila interpretações historiográficas e argumentos que apontam para a ausência de parte dos governos fascistas de um projeto bem definido no campo político e econômico, cujo mote era a inflamação das massas motivadas contra um inimigo comum, que pode ser o judeu ou o estrangeiro…, e a união e homogeneização nacional, sem contanto ter bem estruturado o programa que atingirá tal fim.
As imagens do fascismo
A comum imagem do orador carismático incitando uma multidão anônima que se deixa levar pelo discurso envolvente, representando o fascismo, denota um personalismo, que exime de culpa ou pelo menos relega a uma responsabilidade secundária, aqueles que foram instigados pelos discursos fascistas, ou assumiam postos de comando menos visados, culpabilizando o ícone como se este fosse a síntese do movimento, e único responsável pelas atrocidades decorrentes dele. Além do que a imagem do líder como representação sintética do fascismo oculta toda a estrutura do regime e ideologia, que não podem ser analisados ou compreendidos sem uma reflexão profunda de toda a extensão do fenômeno. Outro problema apontado pelo autor com relação às imagens mais impactantes do fascismo, e aqui o autor toma como exemplo a 'kristallnacht', é que estas eclipsam as imagens e a estrutura cotidiana das sociedades sob regime fascista.
O projeto fascista possuía características obscuras e flutuantes, o que fica evidenciado, no texto pela informação de que judeus participaram da famosa ‘marcha sobre Roma’, o teor anti-semita no caso italiano não esteve bem delineado desde o principio do movimento.
O autor vêm contrapôr também o pressuposto tido como inegável com relação ao estudo de fascismo, que é o anticapitalismo de seu programa. Paxton demonstra que embora existissem traços dessa natureza no projeto fascista, no momento em que este atingiu o poder, esse ponto não foi levado às últimas conseqüências e, “Este livro [o texto em questão] adota a posição de que o que os fascistas fizeram é, no mínimo, tão informativo quanto o que disseram”. No tocante a posição fascista perante socialismo e capitalismo, pelo menos no campo teórico, a pretensão fascista era a de seguir uma terceira via que estaria mediando as duas primeiras. A idéia era de que não deveria haver direita ou esquerda, bem como não haveriam interesses de patrões e empregados, somente os interesses da nação.
O autor tratará também de mais uma contradição entre a “retórica e a prática fascista”, o fetiche por símbolos modernos como carros, aviões e armamentos ao passo que a idéia geral pregada pelos fascistas era a de um culto, com ânsias de retorno aos tempos pré- capitalistas e pré-industriais, no caso alemão especificamente um extremo culto do bucolismo. E ressalta que essa relação só poderá ser bem analisada se o foco de estudo abranger toda a extensão do movimento fascista, ou seu “itinerário”. “As definições são inerentemente limitantes. Delineiam um quadro estático de algo que é mais bem percebido em movimento, e mostram como “estatuária congelada” algo que é mais bem entendido se examinado como um processo.”
Estratégias
Pela leitura do texto captamos a idéia de que os fascismos, que surgiram enquanto movimento, impulsionados pelas circunstâncias excepcionais e rapidamente alçados ao poder, não tinham como base sólidos argumentos intelectuais, a prática no caso fascista sobrepujava a teoria. O autor levanta o ponto, de que essa ausência de um projeto bem delimitado, exclui o fascismo e seu projeto obscuro e flutuante da nomenclatura de ideologia, comuns aos outros “ismos”. Outra característica que coloca esse movimento no sentido oposto aos outros movimentos que estavam no jogo pelo poder social, o antiintelectualismo e a violência extremada como método, são características fundamentais para se compreender a natureza do movimento fascista.”O punho é a síntese da nossa teoria”, conforme afirmou à época militante desse movimento. “o que contava era o zelo dos fiéis, mais que sua concordância intelectual”.
Nesta altura do texto o autor tratará de como em principio, em detrimento do antiintelectualismo de um segundo momento da trajetória fascista, os intelectuais e a incipiente ideologia fascista abriu caminho para o movimento posterior, tornando “possível imaginar o fascismo”, por meio do enfraquecimento do “apego das elites aos valores do Iluminismo”, tais teorias surgiram entre os intelectuais, para propôr uma solução perante os problemas criados pelo capitalismo, dos quais este não dava conta. Paxton ressalta ainda a importância dessas ideologias nos estágios mais avançados do regime, quando se dá um encrudescimento da situação, em razão da guerra.
Para onde vamos a partir daqui
Paxton comentando a ambigüidade do texto que resulta na preferência por parte de alguns autores pelo desuso do termo. Explica que para formular uma definição que dê conta da complexidade do fenômeno fascista é preciso “que o examinemos em ação, desde seus primórdios até o cataclismo final”. Para melhor analisar os inúmeros regimes fascistas, bem como todo seu itinerário, Paxton achou por bem usar como método a análise comparativa segmentada dos diferentes estágios de desenvolvimento do fascismo: “(1) a criação dos movimentos; (2) seu enraizamento no sistema político; (3) a tomada do poder; (4) o exercício do poder; (5) e, por fim, o longo período de tempo durante o qual o regime faz a opção pela radicalização ou pela entropia.” Para então o conceito de fascismo ser bem formulado.
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Bibliografia:
PAXTON, Robert O.“A anatomia do fascismo” São Paulo, 2007 Paz e Terra.
domingo, 23 de março de 2008
Os Fascismos
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
24 de março de 2008
-Texto no 1-
Fichamento do texto: “Os fascismos”, de Francisco Carlos Teixeira da Silva
O autor a principio chama a atenção, numa prévia do que abordará em seu texto, para a importância de alocar o fascismo, ou fascismos, na esteira de um movimento e influência contínuos que perduram até o momento atual, não caracterizá-lo como um evento histórico que pertence ao passado e a historiografia.
INTRODUÇÃO
Silva explica a denominação fascista, usada para qualificar os regimes de extrema direita, que chegaram ao poder na Europa do início e meados do século XX, o termo surge em razão da alcunha adotada pelos partidários do regime italiano, primeiro desses e influente em relação aos seguintes.
Quando o poeta Filippo Marinetti usou pela primeira vez a designação fascio neste contexto, as características novas de nacionalismo e autoritarismo foram aferidas ao termo.
O autor ainda neste tópico ressalta alguns dados que influenciam os pesquisadores a voltar-se mais uma vez sobre o tema, entretanto sob uma nova perspectiva: “a reunificação alemã, a partir do fim do Muro de Berlim... que possibilitou a devolução e abertura de arquivos especificamente dedicados ao fascismo; o ressurgimento do fascismo como movimento de massas em países como França, Itália, Federação Russa...” que influência os estudiosos a tratar o tema no sentido conceitual, como um fenômeno, não mais como um “período histórico determinado”.
HISTÓRIA E POLÍTICA: O LABIRINTO HISTORIOGRÁFICO DO FASCISMO
Francisco Carlos fala da intenção desse novo prisma de análise historiográfica, que se preocupa em formular uma teoria para dar conta da continuidade do movimento. Cita a abordagem mais comum deste tema, específica do pós-guerra, que trata o movimento como tendo um único foco: o fascismo alemão, ou nazismo. E aponta para o provável motivo desta abordagem. A superpotência estadunidense, que saiu do conflito, onde em teoria o fascismo havia sido derrotado e extinto, para um novo confronto de natureza distinta, mais tarde alcunhado de guerra fria. Nesta nova realidade seria inconveniente culpabilizar um número maior de países, visto que estes países poderiam facilmente se unir ao pólo oposto dessa recente disputa, a URSS. Portanto esse debate era relegado a um plano inferior, e esquecido.
A reconstrução da Europa pelos EUA, que buscava erguer sua base de apoio na guerra fria, se deu alicerçada na reestruturação moral do continente. Dessa forma, o colaboracionismo dos países invadidos pelo expansionismo fascista, ficou durante décadas abafado pela interpretação do nazismo alemão e da figura de Hitler, como únicos culpados pelas atrocidades cometidas. Enquanto os outros regimes fascistas europeus, não foram identificados como tal, redimindo de certa forma o restante da Europa fascista de sua consciência de culpa, e permitindo que tal movimento e ideologia perdurasse.
Posteriormente no texto o autor demonstra por meio de uma definição do historiador Wolfgang Schieder, como as características dos regimes fascistas estavam presentes em inúmeros países europeus, a “tese da universalidade possível do fascismo”: “se reconhece como fascistas movimentos nacionalistas extremistas de estrutura hierárquica e autoritária e de ideologia antiliberal, antidemocrática e anti-socialista que fundaram ou intentaram fundar, após a Primeira Guerra Mundial, regimes estatais autoritários. Neste último sentido, o fascismo constitui um dos fenômenos centrais e mais característicos do entreguerra”. Esse esquema seria o espectro geral do fascismo deste período, reservando, naturalmente, as especificidades de cada país.
È importante citar, um termo oriundo do líder do fascismo italiano, que foi incorporado por inúmeros grupos tanto pró como contra fascistas, este termo é ‘totalitário’. Mussolini chama de totalitário o regime que propõe e lidera, cuja característica marcante, seria a de abranger todo aspecto da vida social, econômica e política dos cidadãos sob sua tutela “ [...] espiritual ou materialmente não existiria qualquer atividade humana fora do Estado, neste sentido o fascismo é totalitário”. Quanto a teoria anti-fascista que usa do termo, fica claro que essa tendência irá enfatizar o aspecto englobante de regimes quanto ao aparato Estatal, que comporta em si uma dominação total de “partido, Estado, forças armadas, polícia secreta etc.)” Neste caso poderiam ser considerados totalitários, portanto alvos do combate liderado por EUA, regimes distintos que possuíam além dessa primeira característica, o personalismo de líderes carismáticos em comum, (hitlerismo, stalinismo, etc.) no contexto de combate ao fascismo posterior a Segunda Guerra Mundial.
Conforme o autor já havia dado uma prévia anteriormente, ele vêm tratar da importância em estudar o fascismo enquanto fenômeno, não somente acontecimento passado, em decorrência do ressurgimento de movimentos significativos de massa que reivindicam tal ideologia ou semelhante. E cita exemplos de acontecimentos recentes que explicitam isso: “O inverno europeu desse ano [1991] foi denominado de “inverno neonazista” em face dos inúmeros atos de violência praticados por grupos neofascistas, sobretudo na Alemanha”, “partidos e agrupamentos neofascistas, como o Front National, de Jean Marie Le Pen, na França; A Aliança Nacional, na Itália, de Gian-Franco Fini; os Republicanos e os Nacionais-Populares (DNV), na Alemanha, ou o Partido Liberal-Democrático, na Rússia, com Jirinovski. Estes movimentos que eclodem em conjunturas distintas daquela do início do século XX, não podem ser analisados sob a luz dos conceitos formulados para explicar um fascismo, que seria restrito àquele período histórico.
FASCISMOS: EM BUSCA DE UM MODELO DE ANÁLISE
O modelo de análise do fascismo, vai buscar em dois âmbitos a coerência desse sistema: interno e externo. O texto vai trazer a idéia de que se nos debruçarmos sobre os pontos principais das doutrinas e mesmo da relação política que esses regimes fascistas mantinham, encontraremos atributos comuns, que vão corporificar a gênese geral do fascismo. Entre estes estão não somente os motes levantados por Schieder, como também o anti-universalismo e o nacionalismo, que se traduziria também na reivindicação da originalidade e negação de qualquer influência externa sobre sua doutrina própria, bandeira levantada por todos os países fascistas, em detrimento da evidente circularidade e diálogo entre as esses países que possuíam regimes tão semelhantes. Essa homogeneidade possibilitou também a formulação do perfil do anti-fascista, baseado na identidade do fascista, tudo que não estivesse dentro dessa noção do cidadão, o diferente, seria considerado então estrangeiro, outro e combatido. Nesse perfil podemos identificar: liberais, comunistas, socialistas, gays, judeus... “Assim, malgrado Mussolini, Hitler e seus êmulos de todos os tipos reivindicarem originalidade histórica; todos, em verdade, propunham um mesmo programa, partilhavam a mesma concepção de mundo, criavam mecanismos similares de manipulação de massas, votavam o mesmo ódio e desprezo pelo liberalismo e pelo socialismo e perseguiam da mesma forma minorias identificadas com a alteridade...”. Privilegiando assim o método comparativo e fenomenológico de estudo.
O autor trata então de contrapor a uma vertente historiográfica que só considera os projetos fascistas que foram bem sucedidos em sua investida na busca pelo poder, trazendo para discussão também os programas fascistas que não se tornaram regimes. Abordando ainda, regimes também deixados de lado pela historiografia, os chamados colaboracionistas, e por último aqueles que sobreviveram ao fim da segunda guerra mundial mantendo suas características autoritárias, mas nem tanto fascistas. Englobando todos esses exemplos, para mantendo as particularidades de cada, propor um modelo que sirva de base para a análise de todos estes.
OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS: EM BUSCA DE UMA FENOMENOLOGIA DO FASCISMO
“O método aqui é a identificação da união permanente de linguagem e de ação dos agentes centrais do fascismo”
1. O Antiliberalismo e antiparlamentarismo fascista
Se por um lado o fascismo vinha a se apresentar como a solução para os problemas, em opinião destes, que o liberalismo não mais dava conta, enxergava mesmo no advento do liberalismo com a revolução francesa e em sua política representativa e desagregadora, a raiz dos males da sociedade urbana moderna. De acordo com o programa fascista, não deveriam existir intermediários, aí tratando da função do parlamento, entre o Estado, único com poder de interpretar qual a real necessidade da nação, e o povo, as massas. “ O Novo Estado, por ser de todos, totalitário, considerará como fins próprios os fins de cada grupo que o integram e velará como por si mesmo pelo interesse de todos- (Primo de Rivera, A falange Espanhola)”, deste modo não cabia a existência de mais de um partido, que prejudicaria a coesão nacional, com interesses setoriais que terminariam por lesar o coletivo.
Associada à idéia de falta de coesão nacional trazida pelo liberalismo, existia ainda o buraco deixado pelo rompimento da ligação subjetiva do homem com seu solo, sua nação, muito forte na Idade média, principalmente graças à influência da Igreja, aí podemos pensar nas paróquias, que resultava finalmente na falta de identidade com seu povo. O que o fascismo considerava uma perda de consciência de raça inaceitável.
O autor expõe como o a raça judaica é identificada nesse caso não somente como um exemplo de alteridade, dentro da nação portanto um perigo imediato, como esses também seria os melhores representantes dessa ordem urbana, burguesa e liberal que sintetizava em si o alvo dos fascistas, fossem os alemães, italianos, romenos e outros.
2. O Estado orgânico e liderança carismática
O Estado orgânico, alcunhado dessa forma, pela pretensão de seu governo, de que este funcionasse como um corpo, que age e existe em equilíbrio total de cada uma de suas partes. Metáfora dirigida à liberalização civil, que cria grupos internos, como os partidos, que passam a lutar pelo bem particular de sua classe, prejudicando a harmonia do todo, ou da nação. Ainda dentro da metáfora, o Estado orgânico, precisa da figura personificada do líder, posto que não há organismo sem a direção soberana do cérebro. “O Duce tem sempre razão”, lema do fascismo italiano cuja idéia conferia ao líder e aos mais variados escalões do partido, uma capacidade repressiva e um alcance de poder extraordinários. Considerando aspectos como o do caso alemão onde se privilegiava que as ordens fossem transmitidas através dos escalões de forma oral, somando a isso o fato de que “ante a uma decisão do Fuhrer... não cabe qualquer julgamento” constataremos que os indivíduos, estavam à mercê da arbitrária vontade dos nazistas e de sua violência, não tendo a quem ocorrer em uma instância superior, visto que o sistema judiciário estava destituído de suas funções, pois de acordo com a política nazista somente o líder poderia ser o intérprete do que seria melhor para o coletivo, em detrimento do bem individual, “...a administração pública tornava-se uma hierarquia de obediência pessoal”.
O Estado nazista, inspirado principalmente pela idéia romantizada a respeito do passado medieval germânico, propunha uma estrutura corporativista de governo, na qual não permaneceria o pensamento oriundo da revolução francesa acerca de cidadania. Seria cidadão aquele que pertencesse ao grupo, no caso a raça ariana, e os direitos individuais não existiriam de forma a não sobrepujar os direitos do coletivo.
O autor ainda expõe como o liberalismo era associado à “doutrina judia”, e a limitação do poder do Estado fruto deste modelo, era considerado a razão da crise pela qual passava a nação. Tanto no caso alemão quanto italiano. E como as conseqüências da modernização, culminaram na perda da identidade desses povos “a secularização, o avanço da sociedade liberal e a dissolução dos antigos laços identitários, como a Tradição, faziam ruir rapidamente os anteparos sociais que propiciavam alguma segurança, real ou imaginária”.
Comunidade do povo e a sociedade corporativa: o fascismo enquanto revolução
Silva vai chamar a atenção para a natureza totalizante do programa fascista, que como “metapolítico”, imiscui o âmbito público ao pessoal, dando conta de todas as esferas da vida de seus cidadãos.
Sendo possuidor de características comuns com os socialistas, o partido alemão inclusive possuía o epíteto de nacional-socialista, e também tendo elementos estruturais de acordo com a economia global, capitalista, embora fosse contra ambos os programas, o projeto fascista propunha uma terceira via econômica que seria exatamente essa mistura de ambos.
Quanto às características socialistas é importante frisar que o socialismo era uma vertente que aglutinava massas e possuía uma militância forte na maioria dos países do bloco fascista, a vertente socialista foi componente do fascismo italiano, que por seus intentos iniciais anti-capitalistas pensava na revolução como tendo dois momentos, um primeiro no qual seria tomado o poder e posteriormente um segunda revolução, instaurando um sistema onde não houvesse uma discrepância entre classes econômicas. Essa vertente entretanto foi eliminada tão logo os fascistas italianos arrebataram o poder, em seguida o movimento sindical associado a ela foi substituído por um novo tipo sindical (nacional-sindicalismo). O que aproximava esses regimes do socialismo era a crença na “...interdependência vital de todos os membros da comunidade...” Mas pregando que os interesses de operários e patrões não deveriam se chocar, ao contrário serem conciliados em favor da nação, essa terceira via constituía “A união trabalho/capital”.
Mais uma vez o autor tratará da simbologia associada à figura dos judeus, que é tido como sinônimo/símbolo da modernidade, da modernização, personificado no malévolo desagregador homem urbano, apátrido, moderno.
A destruição do eu e a negação do outro
Um ponto que sempre foi ressaltado pela historiografia tradicional foi a perseguição aos judeus, e por mais que o anti-semitismo tenha sido uma bandeira recorrente nos mais diversos regimes e projetos fascistas o judeu era somente uma expressão conveniente do inimigo. Não somente era um estrangeiro, de etnia e religião diferentes, como podia facilmente ser associado tanto ao capitalismo como ao bolchevismo, mas o foco aqui sempre foi na vítima e não no agressor, o que o grupo de historiadores do qual o autor faz parte vem transformar é exatamente o foco, da vítima para o algoz, e acrescentar um novo ponto, o ódio aos judeus configurava o repúdio a alteridade, um dos traços mais fortes no fascismo, o fascista configurou um perfil do que seria o homem ideal, todo aquele que fosse diferente era considerado perigoso e inferior, a afirmação da identidade baseada na confrontação e depreciação do que seja diferente, do outro.
O autor traz como explicação a essa maneira de lidar com o que é diferente, o momento conturbado econômica e politicamente pelo qual passava boa parte da Europa, bem como a rígida e austera política educacional que resultou dessa crise, que condicionou os indivíduos, segundo uma mentalidade de “só os fortes vencerão”, cerceando sua capacidade de amar a si mesmos e aos outros, transferindo essa habilidade para os avanços tecnológicos do mundo capitalista moderno, ou para o coletivo, sublimado na figura do partido e acima de tudo do líder, este último constituindo a proposta fascista de enfrentamento ante a hegemonia capitalista. A ruína das instituições tradicionais que continham em si a idéia de proteção e segurança, lançou um clima de instabilidade social, e na busca pela sobrevivência os ideais de força, autocontrole e temperança perante as atribulações da vida, edificaram uma sociedade na qual a frieza gerava a estranheza com relação a si mesmo e conseqüentemente aos outros, então o campo para um projeto que proponha a eliminação sumária de outros indivíduos que não sejam considerados aptos se transforma em real.
EM DIREÇÃO A UMA TEORIA DO FASCISMO
A discussão acerca de que características modernas resultaram neste movimento que não está restrito ao início e meados do século XX, traz um importante aviso para o aceno do ressurgimento desses movimentos no mundo atual. A fantasia da pertença a uma comunidade que possa render não só a identificação com algo, como também uma segurança frente a um mundo globalizado, no qual o indivíduo parece estar cada vez mais impotente em relação às grandes corporações faz com que seja fundamental se pensar nos paralelos dos fenômenos do passado com os presentes “Limpar o país dos antinacionais (ontem) ou expulsar o imigrante estrangeiro (hoje)...” e como isso deve ser abordado doravante “é um objetivo que apenas restabelece, num nível imaginário, uma ordem voltada para o passado, expulsa o debate em torno das causas do mal-estar e identifica um alvo para a realização do ódio”.
Bibliografia:
SILVA, Francisco C. T. da. “Os fascismo” In.: REIS FILHO, Daniel Aarão. Século XX. Vol. II: O tempo das crises. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.