sexta-feira, 23 de maio de 2008
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
26 de maio de 2008
-Texto número 7:
“Sol Negro – Cultos Arianos, Nazismo esotérico e Políticas de Identidade”, de Nicholas Goodrick Clarke
“Conclusão – A política da Identidade”
-“O neonazismo americano, representado por George Lincoln Rockwell e seus sucessores, adotou a percepção nazista dos judeus como o fermento da sociedade liberal, promovendo o comunismo, os direitos civis e a mistura de raças.
-A motivação para o neonazismo na década de 50 teria sido a “oposição branca aos direitos civis para negros”. Ao passo que na Grã-Bretanha, a oposição branca se dirigia primordialmente aos imigrantes oriundos das colônias do império britânico.
- Surgimento do slogan neonazista “White power” nos EUA, desencadeado principalmente por “grupos neonazistas [que] passaram a sugerir que o domínio racial branco estava ameaçado”
-“Apesar de a opinião liberal nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha se opor fortemente ao racismo, diversos fatores na política ocidental agiram para reintroduzir a raça como uma categoria legítima de identificação grupal. Durante a década de 1960, os grupos de poder negro e críticos radicais exigiram o reconhecimento oficial do status de grupo “minoritário” e ação compensatória por parte do Estado.”
-A “ação afirmativa” então passou a favorecer os negros, nos âmbitos em que este grupo fossem considerado histórica ou conjunturalmente prejudicado, em detrimento dos brancos, “um impressionante desvio sem precedentes na tradição anglo-americana de direitos individuais”. “Privilégios oferecidos pelo governo com base na raça,... estimularam o crescimento da extrema direita fascista”
-“O desempenho comparativamente alto das minorias asiáticas na educação e no mercado de trabalho e a sua correspondente baixa representatividade nas estatísticas carcerárias demonstram a fragilidade da atribuição do fracasso dos negros ao racismo dos brancos”
- Par alguns como Savitri Devi, Julius Evola e Miguel Serrano, coube a “adoção da cronologia hindu tem a intenção de esquematizar a curva desse declínio [ queda dos brancos (arianos) em uma era degenerada] até a Kali Yuga com a promessa milenarista de regeneração por intermédi de uma nova era dourada no ciclo das eras”
-“Cultos arianos e nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo.”
-Já a teoria de Francis Parker Yockey “articula uma filosofia mítica da história, na qual as raças européias estão (temporariamente) incapacitadas pelas influência judaicas estrangeiras e impedidas de cumprir seu destino em um poderoso novo Império mundial”
-Há ainda, nesse contexto de ressurgimento do nazismo enquanto influência ideológica, a hipótese sugerida por Wilhelm Landig que “elabora uma mitologia neovolkisch das origens na setentrional Thule, para profetizar a recuperação e ressurreição da Alemanha nazista.”
- “Comentadores notaram a ascensão de um novo nacionalismo como uma cultura de resistência às recentes forças de globalização e de imigração. Assim, é altamente significativo eu o culto ariano de identidade branca é mais marcado nos Estados Unidos, onde os desafios do multiculturalismo e da imigração vinda do Terceiro Mundo têm sido maiores”.
- “Em 1980, somente 5% da imigração legal [nos EUA] vinha da Europa, enquanto asiáticos... se aproximavam da metade. A imigração da América Latina (principalmente do México) constituía cerca de 40%... ao mesmo tempo que uma onda de imigração alcançou níveis recordes na década de 1980, ao mesmo tempo que uma onda de imigração hispânica ilegal foi considerada como uma perda de controle sobre as fronteiras da nação”
-A imigração é vista como uma ameaça tanto no âmbito econômico, como no sócio-cultural, com a introdução de novos costumes, crenças, religiões à sociedade antes menos heterogênea.
- “A questão se os Estados Unidos podem realmente assimilar esses imigrantes implora por políticas de bilingüismo e multiculturalismo no sistema educacional”
- “...a extrema direita nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha renovou seu vigor a partir da década de 1980. Essa tendência foi, a princípio, uma surpresa, uma vez que a primeira geração dos líderes neonazistas do pós-guerra estava envelhecendo e a lembrança do desafio do Eixo ao liberalismo ocidental estava passando rapidamente para a História. Entretanto, o surgimento das gangues racistas de skinheads, a música do White Power e a transformação do racismo neonazista em novas religiões populares de identidade branca espelham claramente os crescentes níveis de imigração para países ocidentais e as conseqüentes pressões na direção do multiculturalismo.”
- “Não temos como saber o que reserva o futuro para as sociedades multiculturais do Ocidente, mas a experiência não deu muito certo na Àistria-Hungria, na União Soviética e na Iugoslávia. Os desafios do multirracialismo nos Estados ocidentais liberais são ainda maiores, e é evidente que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade mais difusa contra o liberalismo.”
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Bibliografia:
GOODRICK-CLARKE, Nicholas.“Sol Negro” - Madras
Anatomia do Fascismo - Cap. 7
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
19 de maio de 2008
-Texto número 6: Fichamento do texto: A anatomia do fascismo, de Robert O. Paxton
Capítulo 7 – Outras épocas, outros lugares:
O fascismo ainda é possível
O autor ressalta a importância de dois eventos do início do século XX (“Primeira Grande Guerra e da Revolução Bolchevique”), para a ocorrência do fenômeno fascista. Tendo isso lança as seguintes conjecturas: O fascismo teria acabado?”, e quais condições atuais poderiam propiciar seu ressurgimento, existem tais condições?
Conforme demonstra, para alguns autores o fascismo teria sido produto única e exclusivamente das condições críticas do princípio do século XX, e ainda a repulsa que os movimentos fascistas inspiravam quase que consensualmente no período posterior à Segunda Guerra Mundial, seria o obstáculo primeiro ao ressurgimento de movimentos análogos posteriormente, outro obstáculo seria “a crescente prosperidade e a globalização aparentemente irreversível da economia mundial, o triunfo do consumismo mundial”.
Paxton apresenta então os exemplos fatídicos de acontecimentos que contrariam essas expectativas “... limpeza étnica nos Balcãs; a exacerbação dos nacionalismos excludentes no Leste Europeu pós-comunista; a disseminação da violência dos skin-heads contra os imigrantes...”. Bem como o sucesso eleitoral de grupos de extrema direita em diversos países europeus, sejam eles ligados direta ou indiretamente ao neofascismo, ou ainda que contenham características semelhantes meramente.
“O fato de acreditarmos ou não na recorrência do fascismo depende. é claro, do que entendemos por fascismo.” Segundo Payne, citado por Paxton: “ ‘o fascismo histórico específico não poderá nunca ser recriado’, embora os fascistas continuem existindo, em números reduzidos, e embora possam vir a aparecer ‘formas novas e parcialmente relacionadas de nacionalismo autoritário’”.
Entretanto, como na Europa do pós-guerra assumir-se fascista provavelmente significaria insucesso nas urnas, os líderes de partidos com tendências semelhantes assumiram uma habilidade em desviar seus discursos desses rumos a ponto de não serem comparados senão pelos mais argutos analistas, geralmente oriundos da imprensa crítica. Embora com o passar das gerações que testemunharam de perto os horrores nazi-fascistas, esses tabus tenham vindo se amenizando. Provavelmente “algum movimento futuro disposto a ‘abrir mão das instituições livres’... tendo como meta a reunificação, a purificação e a regeneração de algum grupo prejudicado, decerto daria a si mesmo um outro nome”.
“Se entendermos o renascimento de um fascismo atualizado como o surgimento de algum tipo de equivalente funcional, e não de uma repetição exata, essa recorrÊncia é de faro possível. No entanto teríamos que entendê-la por meio de uma comparação inteligente da forma como funciona, e não de uma atenção superficial a seus símbolos exteriores.”
A Europa ocidental desde 1945
O fascismo embora taxado pela grande maioria da população mundial como hediondo após o conhecimento público dos horrores cometidos por seus seguidores durante a Segunda Guerra, contava com muitos militantes fiéis e assumidos após 1945. Todavia os grupos que obtiveram mais sucesso não proclamavam publicamente suas influências fascistas, um exemplo disso era o ‘Movimento Sociale Italiano’, que só obteve maior sucesso após a morte de seu líder Giorgio Almirante, assumidamente fascista, e a mudança de nome para ‘Alleanza Nacionale’, mascarando sua faceta fascista.
Mas o “neofascismo saudosista... [na] Grã-Bretanha e [na] França sofreram a humilhação de perder seus impérios e sua posição de grandes potências. Para piorar as coisas, seus esforços finais visando ganhar tempo para seus impérios levaram-nas a aceitar imigrações maciças vindas da África, do sul da Ásia e do Caribe.”
Dentre as crises que possibilitaram uma nova emergência da extrema-direita, que tomava o lugar de oposição antes assumido pelos comunistas, decorrente do fim da União Soviética e seu bastião que dava a idéia de possibilidade do comunismo, surgiu um novo, e mais adequado ao presente, ‘bode expiatório’, comum à quase todos os países europeus: os imigrantes.
No continente que havia vivido diretamente o fim da Segunda Grande Guerra com um sentimento de repulsa frente ao fascismo, estava surgindo um movimento muito semelhante à este antes repudiado, em fins do século XX: “Inesperadamente... movimentos e partidos de direita entraram em um período de crescimento os anos 80 e 90. Embora alguns filhos tenham levado adiante a mesma causa de seus pais, novos recrutas, dando voz a novas queixas, trouxeram novo ímpeto à direita radical européia. Algo que se assemelhava ao fascismo nem de longe estava morto, na entrada do século XXI.”
Podemos identificar, neste novo contexto de surgimento de movimentos nacionalistas radicais de extrema direita, também uma crise econômica que irá potencializar suas ações: “O declínio dos setores fabris tradicionais foi um processo longo, mas assumiu proporções de crise após o primeiro e o segundo ‘choques do petróleo’, de 1973 e 1979. Enfrentando a competição dos ‘tigres asiáticos’, com seus custos de mão-de-obra inferiores, sobrecarregados com sistemas de seguridade social caros e com falta de estoques de energia, que vinha ficando cada vez mais cara, a Europa, pela primeira vez desde a década de 30, passou a enfrentar o desemprego estrutural de longo prazo.” Daí surge a nova postura relativa à imigração: Em tempos de fartura, os imigrantes eram bem vindos, porque vinham assumir o trabalho sujo recusado pela força de trabalho nacional. Mas quando, pela primeira vez desde a Grande Depressão, os europeus passaram a enfrentar o desemprego estrutural, os imigrantes deixaram de ter boa acolhida.”
Tidos como ameaça, assim como os judeus no nazismo, os imigrantes passaram a ser vistos como os elementos que colocariam em perigo a economia, bem como a identidade nacional, por introduzir o multiculturalismo aos países que os receberam. A luta contra a alteridade é um foco comum desses movimentos recentes ao fascismo histórico, a principal mudança teria sido o maior inimigo, sai de cena o judeu, entra o imigrante. O grupo mais radical a se colocar contra essa classe, são os skinheads, e esses reivindicam abertamente sua admiração e identificação com o ideário fascista. Esse grupo extremamente violento, composto em sua maioria por jovens desocupados que se sentem ameaçados pelos grupos estrangeiros, em geral são desaprovados consistentemente pela sociedade, mas cabe a questão, suscitada no texto, de que em uma situação de tomada do poder por grupos radicais que se propusessem a acabar com os problemas nacionais, estes não seriam vistos como um mal necessários à resolução do problema e tolerados pela população?
A população dos Estados de bem-estar social, questionavam a legitimidade do acesso dos imigrantes e gerações posteriores destes, aos benefícios estatais, questionavam acima de tudo se essa leva de imigrantes e seus herdeiros deveriam ser considerados cidadãos.
“A Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, foi o primeiro partido de extrema-direita da Europa a encontrar a fórmula certa para as condições da época posterior a 1970” Alcançando índices eleitorais, que não eram atingidos por partidos de extrema-direita desde a década de 1940.
“A Frente Nacional centrava-se intensamente na questão dos imigrantes e nas questões relacionadas a ela, como desemprego, lei e ordem e defesa cultural. Conseguiu reunir num mesmo grupo uma grande variedade de pessoas, posicionando-se então para se transformar num grande partido de base ampla e direcionado ao protesto. No entanto apareceu como uma ameaça direta à democracia.”. Partido que conseguiu índices significativos nas eleições, atingindo o Estágio 2, descrito por Paxton no primeiro capítulo.
“Le Pen conseguiu tirar partido de uma forte onde de ressentimento contra os imigrantes, o crime de rua e a globalização, o que o levou a um chocante segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais de abril de 2002, com 17% dos votos.”
Já no caso italiano, os “democrata-cristãos (DC) [que] ocupavam o poder de forma ininterrupta desde 1948”, foram substituídos no governo italiano pelo Forza Italia, do magnata da mídia Silvio Berlusconi, que fez aliança em seu governo com os antes assumidamente influenciados pelo ideário fascista da Alleanza Nazionalle, que para obter este estatuto, tiveram que trocar de nome e mascarar, suas influências, ou se “normalizar”.
“Uma oportunidade semelhante se abriu na Áustria, após vinte anos durante os quais os socialistas e o Partido do Povo (de católicos centristas moderados) trocavam cargos e favores entre si num acerto de divisão de poder que ficou conhecido como a Proporz... [o] Partido da Liberdade de Haider, ... [ constituía a] única opção não-comunista à Proporz.
“...haveria alguma justificativa para que esses movimentos de segunda geração fossem chamados de fascistas, ou mesmo de neofascistas, diante da veemente negativa deles próprios? Hoje em dia, na Europa Ocidental, existe uma relação aparentemente inversa entre uma aparência abertamente fascista e o sucesso nas urnas. Por essa razão, os líderes dos movimentos e dos partidos de extrema-direita que alcançara, algum grau de sucesso se esforçam ao máximo para se distanciar da linguagem e da imagem do fascismo.”
“Nem todos os movimentos de extrema-direita da Europa-Ocidental seguiram a estratégia da normalização”. “A Frente Nacional britânica, que veio mais tarde, estava entre os partidos de extrema-direita mais abertamente racistas”. “As tentações de normalização eram maiores na França, na Itália e na Àustria, que na Grã-Bretanha e na Bélgica”. Somente a “imprensa sempre vigilante [teve perspicácia e coragem] para acusar de criptofascismo a Le Pen [França], Haider [Áustria] e Fini [Itália].”
“Uma vez que a antiga clientela fascista não tinha lugar para onde ir, ela se satisfazia com insinuações subliminares, seguidas por desmentidos públicos”. O que engrossava ainda mais as fileiras destes partidos ‘criptofascistas’, com fascistas convictos.
“Nos programas e nas declarações desses partidos ouvem-se ecos dos temas fascistas clássicos: medo da decadência e do declínio; afirmação da identidade nacional e cultural; a ameaça à identidade nacional e à ordem social representada pelos estrangeiros inassimiláveis; e a necessidade de uma autoridade mais forte para lidar com esses problemas.”
“O elemento cuja ausência é mais notada, é o clássico ataque fascista à liberdade de mercado e ao individualismo econômico, a ser sanado pelo corporativismo e pela regulamentação dos mercados.”
“Uma outra faceta do s programas do fascismo clássico ausente na direita radical da Europa do pós-guerra é o ataque fundamental às constituições democráticas e ao Estado de direito”
Nem tampouco têm em seus programas projetos de “expansão nacional”, com exceção “os nacionalismo expansionistas dos Bálcãs, que pretendiam criar a Grande Sérvia, a Grande Croácia e a Grande Albânia.”
“Um contraste muito mais nítido surge quando comparamos as circunstâncias de hoje com as da Europa do entreguerras. Com exceção da Europa Central e do Leste Europeu pós-comunistas, a maioria dos europeus, desde 1945, vem desfrutando de paz, de prosperidade, de uma democracia operacional e de ordem interna. A democracia de massas já deixou para trás a fase de seus primeiros e vacilantes passos, como ocorria na Alemanha e na Itália da 1919. A revolução Bolchevique já não representa sequer uma sombra de ameaça. A competição global e a cultura popular americanizada, que ainda são causa de inquietação para muito europeus, parecem ser manejáveis dentro dos sistemas constitucionais vigentes, não havendo necessidade de “abrir mão das instituições livres”. Em suma, ainda que a Europa Ocidental, a partir de 1945, tenha tido “fascismos-herdeiros”, e ainda que, a partir da década de 1980, uma nova geração de partidos de extrema-direita, normalizados, apesar de racistas, tenha conseguido até mesmo ingressar em governos locais e nacionais na qualidade de parceiros minoritários, as circunstâncias, hoje em dia, são tão diferentes da Europa do entreguerras que não há abertura significativa para partidos filiados ao fascismo clássico.”
O leste europeu pós soviético
“Nenhum lugar do planeta produziu, em anos recentes, uma coleção mais virulenta de movimentos radicais de direita que o Leste europeu pós-soviético e os Bálcãs.”
“Quando, após 1991, o experimento pós soviético com a democracia eleitoral e a economia de mercado trouxe resultados desastrosos para a Rússia, movimentos como o Pamyat [de memória] resgataram” uma rica tradição eslavófila: “União do Povo Russo [URP] era um movimento de 'todas as classes', dedicado ao revivescimento e à unificação, que queria salvar a Rússia da contaminação pelo individualismo e pela democracia ocidentais...”
“Todos os Estados sucessores do Leste Europeu, a partir de 1989, tiveram movimentos de direita radical, embora a maioria deles, felizmente tenha permanecido fraca. A democracia conturbada e as dificuldades econômicas, somadas à contestação de fronteiras e à permanência de minorias étnicas descontentes, ofereciam solo fértil a esses movimentos”
“Foi na Iugoslávia pós-comunista que surgiu o equivalente mais próximo das políticas nazistas de extermínio já ocorrido na Europa do pós-guerra.” A fragmentação dos segmentos Sérvio, Croata e Albanês, que buscavam, principalmente entre esses dois últimos aniquilar o outro de seus territórios, gerou o “que o Ocidente veio a chamar de 'limpeza étnica'”.
O fascismo fora da Europa,
“Alguns observadores duvidam que o fascismo possa existir fora da Europa. Argumentam que o fascismo histórico específico exigia as pré-condições especificamente européias da revolução cultural do fim do século, da intensa rivalidade entre os novos pretendentes ao status de Grande Potência, do nacionalismo de massas e da disputa pelo controle das novas instituições democráticas.”
“Muitos observadores esperavam que o sistema do apartheid (segregação), instaurado em 1948, viesse a enrijecer sob pressão a ponto de se configurar em algo próximo ao nazismo.”
“A América Latina, entre 1930 e inícios da década de 1950, chegou mais perto de qualquer outro continente que não a Europa do estabelecimento de algo próximo a regimes genuinamente fascistas.” Entretanto,
é preciso atentar para o “alto grau de pura imitação [que] ocorreu durante o período de ascensão do fascismo na Europa. Os ditadores locais tendiam a adotar a cenografia fascista, na moda nos anos 1930, ao mesmo tempo em que copiavam soluções para a Depressão tanto do New Deal de Roosevelt, quanto do corporativismo de Mussolini.”
“A avaliação das ditaduras latino-americanas pela ótica do fascismo, é uma empreitada intelectual perigosa. Na pior das hipóteses, pode se converter num exercício de rotulação vazia. Na melhor, pode tornar mais nítida nossa imagem do fascismo clássico. Para que a comparação seja correta. Temos que distinguir entre os diversos níveis de similaridades e de diferenças. As similaridades são encontradas nos mecanismos de poder, nas técnicas de propaganda e na manipulação de imagens, ocasionalmente, em políticas específicas tomadas de empréstimo ao fascismo, tais como a organização corporativista da economia. As diferenças se tornam mais aparentes quando examinamos os ambientes sociais e políticos e a relação desses regimes com a sociedade”
“Tanto Vargas como Perón, tomaram o poder de oligarquias, e não de democracias falidas, e ambos, ampliaram a participação política”
“A visão de Hitler de uma sociedade perfeita, maculada por comunistas e judeus (que em sua mente eram idênticos), teve paralelos nos integralistas brasileiros e nos nacionalistas argentinos, que, no entanto, foram marginalizados por Vargas e Perón”
“Nem Vargas nem Perón se sentiram obrigados a exterminar um grupo específico. Sua polícia, embora brutal e incontrolada, punia inimigos individualmente identificados, não tendo como meta a eliminação de categorias inteiras.”
“As ditaduras latino-americanas se encaixam melhor na definição de ditaduras desenvolvimentistas nacional-populistas que usavam emblemas fascistas, talvez distantemente assemelhadas à de Mussolini, mas de modo algum à de Hitler (apesar de sua simpatia pelo eixo, durante a guerra).”
“O Japão, o mais industrializados dentre os países não-ocidentais, e também o que mais sofreu influência da adoção seletiva das coisas ocidentais, foi outro regime não-europeu com maior freqüência chamado de fascista. Durante a Segunda Guerra Mundial, os propagandistas aliados não hesitaram em identificar o Japão imperial com seus parceiros do eixo. Atualmente, embora a maioria dos acadêmicos ocidentais veja o Japão imperial como distinto do fascismo, os estudiosos japoneses, e não apenas os marxistas, costumam interpretá-lo como um “fascismo de cima para baixo”.
“Na década de 1920, o Japão havia dado uma série de passos em direção à democracia. Em 1926, todos os homens adultos receberam o direito de voto”
“Dentre as opiniões que eram então ouvidas, estava a Kita Ikki, que já foi chamado de um autêntico fascista japonês. O Esboço Geral das medidas para a Reconstrução do Japão (1919), de autoria de Kita, defendia a imposição estatal de restrições aos industriais e aos grandes proprietários de terras, que ele via como a principal barreira à unificação e à regeneração nacionais. Segundo Kita, depois de libertado da discórdia e dos obstáculos ao progresso criados pelo capitalismo competitivo, o Japão tornar-se-ia o centro de uma nova Ásia independente do domínio ocidental.”
A jovem democracia japonesa não sobreviveu à crise de 1931. A Grande Depressão já havia trazido pobreza para o campo e, em setembro de 1931, os líderes japoneses usaram de um pretexto para invadir a Manchúria.
“houve várias execuções, entre elas a de Kita Ikki. O próprio imperador, desse modo, pôs fim ao que foi chamado de o “o fascismo vindo de baixo” japonês.”
”Em julho de 1937, os militares japoneses provocaram um incidente na China, dando início a oito anos de guerra total no continente.”
”empossado no cargo de primeiro-ministro em julho de 1940, o príncipe Konoe estabeleceu uma ”Nova Ordem” Interna, de caráter explicitamente totalitário, cujo objetivo era colocar o Japão na liderança do que veio a ser chamado de ”Esfera de Co-Prosperidade do Grande Leste Asiático.”
”Fascistas autênticos surgiram no Japão em fins da década de 1930, na época em que os nazistas alcançavam um ofuscante êxito.”
”Em suma, o governo japonês, decidiu-se por um exame seletivo de cardápio fascista, adotando algumas de suas medidas de organização econômica corporativista e de contrôle popular, numa ”revolução seletiva” implementada pela ação estatal, ao mesmo tempo que suprimia o ativismo popular desordenado dos movimentos fascistas autênticos”
”Embora nao haja dúvida qaunto ao fato do Japão imperial se inspirar em modelos fascistas e compartilhar características importantes com este, a variante japonesa era imposta pelos governantes, faltando-lhe a base de um partido de massas único ou de um movimento popular.”
”semsemelhanças de curto prazo entre as situações da Alemanha e do Japão no século XX: a vívida percepção da ameaça representada pela União Soviética (...) e a necessidade de adaptar rapidamente suas hierarquias políticas e sociais tradionais à política de massas. O Japão imperial era ainda mais eficiente que a Alemanha no uso de métodos modernos de mobilização e propaganda, visando integrar sua população sob a autoridade tradicional.”
”Por fim, o Japão, embora indubitavelmente influenciado pelo fascismo europeu, e apesar também de algumas analogias estruturais com a Alemanha e a Itália serem possíveis, enfrentava problemas menos críticos que aqueles dois países europeus. Os japoneses nao se defrontaram com a ameaça de uma revolução iminente e não tinha que superar a derrota externa nem a desintegração nacional (embora eles temesse e se ressentissem dos obstáculos colocados pelo Ocidente à sua expansão na Ásia). Apesar de o regime lançar mão de técnicas de mobilização de massas, seus líderes não enfrentavam a competição de partidos oficiais ou de movimentos de base.”
”Os regimes ditatoriais da África e da América Latina que deram sustentação aos interesses norte-americanos ou europeus (extração de recursos, privilégios de investimentos, apoio estratégico durante a guerra fria) e, em troca, foram apoiados por protetores ocidentais, já foram chamados de ”fascismos clientes”, fascismos substitutos” ou ”fascismos coloniais”.”
”Estes Estados-Clientes, entretanto, por mais odiosos que tanham sido, não podem ser chamados de fascistas porque nem tinha uma base de aclamação popular nem eram livres para se engajar em expansionismo territorial. Caso permitissem a mobilização da opinião pública, estariam se arriscando a vê-la se voltarcontra seus patrões estrangeiros e contra eles prórpios. A melhor definição para esses regimes seria o de ditaduras ou tiranias tradicionais com apoio externo.”
”movimentos que empregam temas autenticamente americanos de maneira funcionalmente assemelhadas ao fascismo. A Klan ressurgiu na década de 1920, incorporou um antisemtismo virulento e se espalhou pelas cidades e pelo Meio-Oeste americano. Nos anos 1930, o padre Charles E. Coughlinreuniu uma audiência radiofônica estimada em 40 milhões, em torno de uma mensagem anti-comunista, anti-Wall Street, a favor da não-regulamentação das doações partidárias e, após 1938, também anti-semita, transmitida de sua igreja situada na periferia de Detroit.”
”É óbvio que os Estados Unidos teriam que sofrer reveses de proporções catastróficas, levando a uma polarização intensa, antes de esses grupos marginais conseguirem encontrar aliados poderosos e ingressar na corrente central da vida política.”
”A partir de 11 de setembro de 2001, as liberdades civís vêm sendo restringidas em nome da guerra patriótica contra os terroristas, sob os aplausos da população. A linguagem e os símbolos de um fascismo autenticamente americano, é claro, teriam pouco ou nada a ver com os modelos europeus originais.”
”Num fascismo americano, não haveria suásticas, mas sim Estrelas, Listras e cruzes cristães, e não haveria saudações nazistas, mas sim a recitação de Juramento da Lealdade. Esses símbolos, em si, não contêm sequer um sopro de fascismo, é claro, mas um fascismo americano os transformaria num teste obrigatório para a detecção do inimigo externo.”
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Bibliografia:
PAXTON, Robert O.“A anatomia do fascismo” São Paulo: Paz e Terra, 2007.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Modernidade e holocausto
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
12 de maio de 2008
-Texto número 6-
Fichamento do texto: Modernidade e Holocausto
Capítulo 4 – Singularidade e normalidade do holocausto
Bauman demonstra sua perspectiva sobre o fenômeno nazista, particularmente o holocausto, descrevendo-o como uma possibilidade viável e mais do que isso característica da moderna civilização ocidental. Bauman e seus colegas que partilham do mesmo ponto de vista, referidos no texto, vêm contrariar a opinião, para eles mais cômoda e facilmente aceitável, de que o holocausto foi um evento extraordinário, uma infelicidade fruto de infelizes acasos sucessivos.
O problema
O autor definirá “duas razões pelas quais o holocausto... não pode ser visto como assunto de interesse exclusivamente acadêmico”. A primeira razão seria o pequeno impacto, relativamente à crueldade do fenômeno, causado por este nos alicerces do pensamento acadêmico, que tratando o evento como uma exceção dentro de sua estrutura social, não pode dar conta das circunstâncias que criaram tal marco histórico. A segunda razão vinculada diretamente à primeira sugere que, levando-se em consideração a maneira como o tema foi trabalhado “as condições que um dia deram origem ao holocausto não foram radicalmente transformadas”, o horror do holocausto não foi uma anormalidade dentro das condições modernas portanto poderia se repetir. Ainda nesse segmento do capítulo, o autor apresentará questões, que são melhor desenvolvidas ao longo de todo o texto, como os ideais e as práticas nazistas “não apenas se revelaram plenamente compatíveis com a civilização moderna, como foram condicionados, criados e fornecidos por ela”. E mais do que isso, que a moderna civilização nada pôde fazer para evitar esse terrível exemplo, do encontro e maximização de vários idos ideais modernos sob uma ideologia abominável, que resultou numa grande desgraça. Genocídio moderno Bauman contra-argumentará a noção de que a ocorrência do holocausto teria sido uma falha dentro do projeto moderno de civilização, apontando as particularidades do genocídio nazista, frente a massacres anteriores da história. No quesito 'assassinato em massa' bem como em todos os atuais, a modernidade supera seus apres antepassados em número, eficiência, organização e planejamento. Características enaltecidas e intrínsecas á civilização moderna. 2 O vencimento das emoções, tidas como inferiores e exterminadas pelo processo civilizador, dão lugar ás motivações de ordem pragmática: realiza-se o genocídio de maneira fria, desapaixonada, por este constituir “um meio para tingir um fim, [como] uma necessidade que decorre do objetivo último” no caso alemão, a nação de raça pura.
Peculiaridade do genocídio moderno
“O curto circuito... entre uma elite de poder ideologicamente obcecada e as tremendas facilidades de ação racional e sistêmica desenvolvidas pela sociedade moderna é de ocorrência relativamente rara”, “È único [o holocausto moderno] entre outros casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face á rotina da sociedade moderna porque traz á luz certos fatores ordinários da modernidade que normalmente são mantidos á parte”. Esses dois trechos do texto, sintetizam bem a peculiaridade do holocausto nazista, descrita mais largamente ao longo do texto, que reúne em si elementos comuns á civilização moderna, apenas a concomitância de todos eles seria inusitada. Importante trazer do texto também o elemento dentre os descritos acima que seria o “mais crucial dos fatores constituintes do holocausto: os padrões tipicamente modernos, tecnológico burocráticos , de ação e a mentalidade que eles geram, institucionalizam, mantém e reproduzem”.
O discurso ocidental em sua auto-apologia, irá expressar a “imagem popular da sociedade civilizada [que] é mais que qualquer outra coisa, a da ausência de violência...” Entretanto conforme Bauman, essa violência setorizada e camuflada (somente o Estado poderia fazer uso da violência a partir de então, violência esta inserida e justificada pelos padrões modernos), tomaria proporções assustadoras tendo como base os ideais “de nosso tempo”: “o terrorismo e a tortura já não são mias instrumentos de paixões; viraram instrumentos da racionalidade política”
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A setorização do projeto ideológico e da prática que o acompanha, merecem atenção especial á medida que tornam todo o processo, menos feio para a grande maioria daqueles que o realizam, mais nebulosa a face dos que poderiam ser culpabilizados, o autor usa o exemplo dos operários de uma fábrica para ilustrar esse ponto: “Será que os operários das indústrias químicas produtores de napalm se sentem responsáveis por bebês queimados?” Certamente não pois a meticulosa divisão do trabalho faz com que um indivíduo, no caso o operário, não tenha responsabilidades frente às ações resultantes dos empreendimentos da instituição da qual faz parte. O indivíduo mecanizado terá em mente a preocupação com a otimização de seu serviço e não com o produto final do mesmo, uma vez que “Numa divisão funcional do trabalho tudo o que alguém faz é em principio multifinal, isto é pode ser combinado e integrado dentro de mais de uma totalidade definidora de sentido”. Os exemplos aludidos no parágrafo anterior (“substituição da responsabilidade moral pela técnica” e a “meticulosa dissecação e separação funcional das tarefas”) Proporcionavam o distanciamento moral necessário á realização das tarefas mais vis “o resultado é a irrelevância dos padrões morais para o sucesso técnico da operação burocrática” 3
Desumanização dos objetos burocráticos
“Outro efeito igualmente importante do contexto da ação burocrática é a desumanização dos objetos da operação burocrática, a possibilidade de expressá-los em termos puramente técnicos, éticamente neutros” ... “graças ao distanciamento, os objetos visados pela operação burocrática podem e são reduzidos a um conjunto de medidas quantitativas” Que visem exclusivamente ao lucro, sendo irrelevantes os usos posteriores dos produtos que originam esse lucro. Sob o prisma burocrático o gênero humano “perde sua identidade”, se torna mais um número, que caso precise ser eliminado, não despertará problemas de natureza ética ou moral aos participantes do processo de eliminação, que será tão somente uma tarefa a ser eficientemente realizada.
Essa desumanização é mesmo inerente ao burocratismo e nota-se em sua expressão mais comum, cotidiana, menos extraordinária, bem como nos casos extremos. “A conclusão geral é que o modo de ação burocrático, tal como desenvolvido no curso do processo civilizador, contém todos os elementos técnicos que se revelaram necessários á execução de tarefas genocidas”.
O papel da burocracia no holocausto
Uma das características que o autor aponta como sendo tipicamente modernas, é a eficiência na realização de um projeto, após a delimitação de seu objetivo. O objetivo do projeto nazista era a implantação de uma nação judenrein, ou seja, livre de judeus. Como demonstra Bauman, os historiadores que analisaram tal evento, em geral se dividiam entre "intencionalistas" e "funcionalistas". O autor se encontra entre esses últimos, que compartilham da visão de que após a deliberação do objetivo a burocracia supera seus propulsores humanos e toma uma capacidade irrefreável no sentido de atingir sua meta com a maior eficiência, baseada na relação custo-benefício. Logo, pode não ter sido -provavelmente não foi- desde o principio a intenção dos nazistas de exterminar as populações judias com as quais entrava em contato, (os intencionalistas crêem que sim), mas a máquina burocrática que visava a excluí-los de seu espaço vital, tomou proporções que não mais poderiam ser controladas por uma ou outra instituição que tenha desencadeado.
Falência das salvaguardas modernas
"A consciência da ameaça constante contida no desequilíbrio caracteristicamente moderno de poder tornaria a vida insuportável, se não fosse pela nossa confiança nas salvaguardas..." Mesmo aqueles que não compactuavam da manifestação nacional-socialista que arrebatou a Alemanha, e que tacitamente eram contra sua violência desmedida, se sentiam imobilizados frente a um movimento que não era detido pelas instituições civilizadas que deveriam manter a paz e ordem social.
A setorização da violência cujo uso passou a ser permitido somente a uma menor parte da sociedade regida pelo Estado, deixou os indivíduos, civilizados, gentis e pacatos, que não sabiam como reagir a uma expressão de violência direta, à mercê dela mesma, pois estes não mais tinham força enquanto atores, e as instituições que representavam seu bem estar e 4 segurança pessoal, ha
Diante de uma equipe inescrupulosa que sobrecarregava a poderosa máquina do Estado moderno com seu monopólio de violência e coerção física, as mais decantadas conquistas da civilização moderna falharam como salva-guardas contra a bárbarie. A civilização mostrou-se incapaz de garantir a utilização moral dos terríveis poderes que trouxe à luz."
Conclusões
"Na ausência de autoridade tradicional, os controles e contra-pesos capazes de manter o corpo político longe dos extremismos só podem ser fornecidos pela democracia política." Em uma situação crítica "o poder político torna-se... praticamente a única força por trás da ordem emergente". "...acentuada supremacia do poder político em relação ao poder econômico e social, do Estado sobre a sociedade." "As condições modernas tornaram possível a emergência de um Estado pleno de recursos, capaz de substituir toda a rede de controles sociais e econômicos pelo comando político e a administração. Lembremos que a ordem moderna é uma era de ordem artificial e de grandiosos projetos societários..."
Um dos principais ideólogos do nacional-socialismo, R. W. Darré, citado no livro de Bauman, fala das melhorias que devem ser feitas na sociedade, usando a analogia de um jardim cuidado e a eliminação das ervas daninhas, Bauman reflete sobre a pertença e representação desse pensamento ao quadro ideário moderno: "as ambições de "melhoria da realidade" que são a essência da atitude moderna e que só os recursos do poder moderno nos permitem assumir seriamente" "No que diz respeito à modernidade, o genocídio não é nem uma anormalidade nem uma disfunção. Ele mostra do que é capaz a tendência racionalizante do planejamento moderno se não controlada e abrandada..."
Bauman termina o capítulo com uma constatação em tom de aviso, que relaciona os crescentes processos de modernização tecnológica combinada com a desumanização oriunda desses, que só tornaram holocaustos realidades mais próximas e assustadoras paralelamente ao avanço técnico: "Parece haver menos esperança que antes em poder contar com as garantias civilizadas contra a desumanidade para controlar a aplicação do potencial instrumental-raciona humano, uma vez que o cálculo da eficiência foi agraciado com a suprema autoridade para decidir propósitos políticos."
Bibliografia:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998. Capítulo: “Singularidade e normalidade do holocausto” p. 106 a 141
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
07 de abril de 2008
-1o Filme-
Homo Sapiens 1900 – de Peter Cohen
O Filme trata do fenômeno cientificista surgido em princípios do século XX, denominado eugenia, ou higiene racial. Que significa da limpeza étnica, baseada na superioridade de uma raça ou linhagem, em relação à outras.
A eugenia, conforme retratado no filme, pode ser efetivada e era idealizada por seus teóricos, de duas maneiras: eugenia positiva e eugenia negativa. A primeira seria o benefício e procriação da raça superior pela proibição da reprodução entre raças inferiores, bem como o estímulo a formação de casais puros e de raças consideradas boas, que dessa forma gerariam uma prole melhor que as outras. Já a eugenia negativa, previa a aniquilação daqueles que constituíssem, segundo os parâmetros estabelecidos uma raça inferior.
A eugenia foi tomada como política por diversos movimentos de grande força do início até meados do século XX, dentre esses movimentos podemos identificar o nacional-socialismo, o soviético, o fascismo italiano e outros.
Um dos argumentos para a prática da eugenia, nesse caso oriundo da Suécia, era "o bem da nação acima do individual", pois com essa prática se imaginava que toda uma geração de cidadãos mais aptos e mais belos seria continuamente perpetuada.
Embora na união soviética o Mendelismo tenha sido declarado inverossímil, principalmente por ser considerado contra-revolucionário, e o Lamarckismo e sua idéia de que é possível que características adquiridas fossem herdadas, houvessem sido amplamente aceitos e divulgados em determinado período, a eugenia de tipo positivo, a busca pelas características físicas que faziam de algumas pessoas, nesse caso os grandes ícones do movimento socialista e do partido soviético, superiores às outras, e a conseguinte procriação entre estas para a criação de uma sociedade mais apta, tornou-se quase uma obsessão no governo soviético.
Uma das grandes diferenças entre o ideário eugênico alemão e soviético desse período, era que este último privilegiava os atributos intelectuais, enquanto que o primeiro visava principalmente a reprodução da beleza, e do padrão estético considerado superior. O partido alemão inclusive foi o primeiro a adotar a higiene racial em seu programa. Embora não tenha sido seu inventor como muito se pensa.
Para os bolcheviques, a eugenia só poderia ser plenamente realizada no Estado socialista, após a abolição da instituição da família. Essas características geraram uma contradição na Alemanha nazista, pois a eugenia positiva e a procriação determinada pelo Estado, iam contra os preceitos vinculados à tradição da família, tão fortes na Alemanha e inclusive característicos do Partido Nazista. Tal ato seria a separação artificial de procriação e amor.
Importante ater-se que muitas leis de eugenia só seriam revogadas na Suécia, 3 décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, o que nos deixa uma pista sobre como foi o processo de desnazificação ou de combate aos resquícios fascistas na Europa do pós-guerra.