Universidade Federal do Rio de Janeiro
Aluna: Maria de Lourdes de Lucena Sartor
DRE: 106030957
Nazismo, neo-nazismo e revisionismo
12 de maio de 2008
-Texto número 6-
Fichamento do texto: Modernidade e Holocausto
Capítulo 4 – Singularidade e normalidade do holocausto
Bauman demonstra sua perspectiva sobre o fenômeno nazista, particularmente o holocausto, descrevendo-o como uma possibilidade viável e mais do que isso característica da moderna civilização ocidental. Bauman e seus colegas que partilham do mesmo ponto de vista, referidos no texto, vêm contrariar a opinião, para eles mais cômoda e facilmente aceitável, de que o holocausto foi um evento extraordinário, uma infelicidade fruto de infelizes acasos sucessivos.
O problema
O autor definirá “duas razões pelas quais o holocausto... não pode ser visto como assunto de interesse exclusivamente acadêmico”. A primeira razão seria o pequeno impacto, relativamente à crueldade do fenômeno, causado por este nos alicerces do pensamento acadêmico, que tratando o evento como uma exceção dentro de sua estrutura social, não pode dar conta das circunstâncias que criaram tal marco histórico. A segunda razão vinculada diretamente à primeira sugere que, levando-se em consideração a maneira como o tema foi trabalhado “as condições que um dia deram origem ao holocausto não foram radicalmente transformadas”, o horror do holocausto não foi uma anormalidade dentro das condições modernas portanto poderia se repetir. Ainda nesse segmento do capítulo, o autor apresentará questões, que são melhor desenvolvidas ao longo de todo o texto, como os ideais e as práticas nazistas “não apenas se revelaram plenamente compatíveis com a civilização moderna, como foram condicionados, criados e fornecidos por ela”. E mais do que isso, que a moderna civilização nada pôde fazer para evitar esse terrível exemplo, do encontro e maximização de vários idos ideais modernos sob uma ideologia abominável, que resultou numa grande desgraça. Genocídio moderno Bauman contra-argumentará a noção de que a ocorrência do holocausto teria sido uma falha dentro do projeto moderno de civilização, apontando as particularidades do genocídio nazista, frente a massacres anteriores da história. No quesito 'assassinato em massa' bem como em todos os atuais, a modernidade supera seus apres antepassados em número, eficiência, organização e planejamento. Características enaltecidas e intrínsecas á civilização moderna. 2 O vencimento das emoções, tidas como inferiores e exterminadas pelo processo civilizador, dão lugar ás motivações de ordem pragmática: realiza-se o genocídio de maneira fria, desapaixonada, por este constituir “um meio para tingir um fim, [como] uma necessidade que decorre do objetivo último” no caso alemão, a nação de raça pura.
Peculiaridade do genocídio moderno
“O curto circuito... entre uma elite de poder ideologicamente obcecada e as tremendas facilidades de ação racional e sistêmica desenvolvidas pela sociedade moderna é de ocorrência relativamente rara”, “È único [o holocausto moderno] entre outros casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face á rotina da sociedade moderna porque traz á luz certos fatores ordinários da modernidade que normalmente são mantidos á parte”. Esses dois trechos do texto, sintetizam bem a peculiaridade do holocausto nazista, descrita mais largamente ao longo do texto, que reúne em si elementos comuns á civilização moderna, apenas a concomitância de todos eles seria inusitada. Importante trazer do texto também o elemento dentre os descritos acima que seria o “mais crucial dos fatores constituintes do holocausto: os padrões tipicamente modernos, tecnológico burocráticos , de ação e a mentalidade que eles geram, institucionalizam, mantém e reproduzem”.
O discurso ocidental em sua auto-apologia, irá expressar a “imagem popular da sociedade civilizada [que] é mais que qualquer outra coisa, a da ausência de violência...” Entretanto conforme Bauman, essa violência setorizada e camuflada (somente o Estado poderia fazer uso da violência a partir de então, violência esta inserida e justificada pelos padrões modernos), tomaria proporções assustadoras tendo como base os ideais “de nosso tempo”: “o terrorismo e a tortura já não são mias instrumentos de paixões; viraram instrumentos da racionalidade política”
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
A setorização do projeto ideológico e da prática que o acompanha, merecem atenção especial á medida que tornam todo o processo, menos feio para a grande maioria daqueles que o realizam, mais nebulosa a face dos que poderiam ser culpabilizados, o autor usa o exemplo dos operários de uma fábrica para ilustrar esse ponto: “Será que os operários das indústrias químicas produtores de napalm se sentem responsáveis por bebês queimados?” Certamente não pois a meticulosa divisão do trabalho faz com que um indivíduo, no caso o operário, não tenha responsabilidades frente às ações resultantes dos empreendimentos da instituição da qual faz parte. O indivíduo mecanizado terá em mente a preocupação com a otimização de seu serviço e não com o produto final do mesmo, uma vez que “Numa divisão funcional do trabalho tudo o que alguém faz é em principio multifinal, isto é pode ser combinado e integrado dentro de mais de uma totalidade definidora de sentido”. Os exemplos aludidos no parágrafo anterior (“substituição da responsabilidade moral pela técnica” e a “meticulosa dissecação e separação funcional das tarefas”) Proporcionavam o distanciamento moral necessário á realização das tarefas mais vis “o resultado é a irrelevância dos padrões morais para o sucesso técnico da operação burocrática” 3
Desumanização dos objetos burocráticos
“Outro efeito igualmente importante do contexto da ação burocrática é a desumanização dos objetos da operação burocrática, a possibilidade de expressá-los em termos puramente técnicos, éticamente neutros” ... “graças ao distanciamento, os objetos visados pela operação burocrática podem e são reduzidos a um conjunto de medidas quantitativas” Que visem exclusivamente ao lucro, sendo irrelevantes os usos posteriores dos produtos que originam esse lucro. Sob o prisma burocrático o gênero humano “perde sua identidade”, se torna mais um número, que caso precise ser eliminado, não despertará problemas de natureza ética ou moral aos participantes do processo de eliminação, que será tão somente uma tarefa a ser eficientemente realizada.
Essa desumanização é mesmo inerente ao burocratismo e nota-se em sua expressão mais comum, cotidiana, menos extraordinária, bem como nos casos extremos. “A conclusão geral é que o modo de ação burocrático, tal como desenvolvido no curso do processo civilizador, contém todos os elementos técnicos que se revelaram necessários á execução de tarefas genocidas”.
O papel da burocracia no holocausto
Uma das características que o autor aponta como sendo tipicamente modernas, é a eficiência na realização de um projeto, após a delimitação de seu objetivo. O objetivo do projeto nazista era a implantação de uma nação judenrein, ou seja, livre de judeus. Como demonstra Bauman, os historiadores que analisaram tal evento, em geral se dividiam entre "intencionalistas" e "funcionalistas". O autor se encontra entre esses últimos, que compartilham da visão de que após a deliberação do objetivo a burocracia supera seus propulsores humanos e toma uma capacidade irrefreável no sentido de atingir sua meta com a maior eficiência, baseada na relação custo-benefício. Logo, pode não ter sido -provavelmente não foi- desde o principio a intenção dos nazistas de exterminar as populações judias com as quais entrava em contato, (os intencionalistas crêem que sim), mas a máquina burocrática que visava a excluí-los de seu espaço vital, tomou proporções que não mais poderiam ser controladas por uma ou outra instituição que tenha desencadeado.
Falência das salvaguardas modernas
"A consciência da ameaça constante contida no desequilíbrio caracteristicamente moderno de poder tornaria a vida insuportável, se não fosse pela nossa confiança nas salvaguardas..." Mesmo aqueles que não compactuavam da manifestação nacional-socialista que arrebatou a Alemanha, e que tacitamente eram contra sua violência desmedida, se sentiam imobilizados frente a um movimento que não era detido pelas instituições civilizadas que deveriam manter a paz e ordem social.
A setorização da violência cujo uso passou a ser permitido somente a uma menor parte da sociedade regida pelo Estado, deixou os indivíduos, civilizados, gentis e pacatos, que não sabiam como reagir a uma expressão de violência direta, à mercê dela mesma, pois estes não mais tinham força enquanto atores, e as instituições que representavam seu bem estar e 4 segurança pessoal, ha
Diante de uma equipe inescrupulosa que sobrecarregava a poderosa máquina do Estado moderno com seu monopólio de violência e coerção física, as mais decantadas conquistas da civilização moderna falharam como salva-guardas contra a bárbarie. A civilização mostrou-se incapaz de garantir a utilização moral dos terríveis poderes que trouxe à luz."
Conclusões
"Na ausência de autoridade tradicional, os controles e contra-pesos capazes de manter o corpo político longe dos extremismos só podem ser fornecidos pela democracia política." Em uma situação crítica "o poder político torna-se... praticamente a única força por trás da ordem emergente". "...acentuada supremacia do poder político em relação ao poder econômico e social, do Estado sobre a sociedade." "As condições modernas tornaram possível a emergência de um Estado pleno de recursos, capaz de substituir toda a rede de controles sociais e econômicos pelo comando político e a administração. Lembremos que a ordem moderna é uma era de ordem artificial e de grandiosos projetos societários..."
Um dos principais ideólogos do nacional-socialismo, R. W. Darré, citado no livro de Bauman, fala das melhorias que devem ser feitas na sociedade, usando a analogia de um jardim cuidado e a eliminação das ervas daninhas, Bauman reflete sobre a pertença e representação desse pensamento ao quadro ideário moderno: "as ambições de "melhoria da realidade" que são a essência da atitude moderna e que só os recursos do poder moderno nos permitem assumir seriamente" "No que diz respeito à modernidade, o genocídio não é nem uma anormalidade nem uma disfunção. Ele mostra do que é capaz a tendência racionalizante do planejamento moderno se não controlada e abrandada..."
Bauman termina o capítulo com uma constatação em tom de aviso, que relaciona os crescentes processos de modernização tecnológica combinada com a desumanização oriunda desses, que só tornaram holocaustos realidades mais próximas e assustadoras paralelamente ao avanço técnico: "Parece haver menos esperança que antes em poder contar com as garantias civilizadas contra a desumanidade para controlar a aplicação do potencial instrumental-raciona humano, uma vez que o cálculo da eficiência foi agraciado com a suprema autoridade para decidir propósitos políticos."
Bibliografia:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998. Capítulo: “Singularidade e normalidade do holocausto” p. 106 a 141
Nenhum comentário:
Postar um comentário